Diário de um Bombeiro

Explicação sobre a tragédia do Pedrogão

 

A tragédia do Pedrogão Grande foi um dos eventos meteorológicos/ambientais mais extremos registados
em Portugal



Deixamos aqui uma explicação sobre a tragédia do Pedrogão.

Calor extremo e trovoadas
Com mais de 24h de antecedência, no dia 16 de Junho, o Bestweather tinha emitido uma previsão de trovoadas fortes para uma faixa entre o vale do Mondego e o Alentejo, devido à aproximação de uma perturbação de níveis altos ( 6-10km de altitude) conjugada com uma ressurgência de ar extremamente quente e energético nas camadas baixas da troposfera.

A presença de camadas de ar com humidade relativa baixa ao longo do perfil vertical ( ” Perfil em V invertido “), grandes diferenças de temperatura entre a massa de ar quente nos níveis baixos e ar mais frio em altitude, eram favoráveis à ocorrência de trovoadas com fortes correntes descendentes, do tipo downburst, assim como queda de granizo de grandes dimensões.

Por este motivo, emitimos uma previsão de ocorrência de trovoadas severas com potencial para situações de tempo extremo localizadas e iniciámos um acompanhamento especial desta situação potencialmente catastrófica.

“Embora não se consiga pormenorizar exatamente se a causa do incêndio foi devido a descargas elétricas atmosféricas ou outra causa humana ou natural, temos um grande grau de certeza de que as rajadas severas associadas às trovoadas contribuíram fortemente para a tragédia”


Ar seco em altitude gera arrefecimento evaporativo das massas de ar dentro das trovoadas, que depois descem e adquirem elevadas velocidades, gerando ventos severos.

No dia 17 de Junho de 2017, a nossa análise ao início da tarde, confirmava a presença de uma perturbação em altitude a progredir de sudoeste, com vento de leste à superficie a aportar ar quente… pela hora de almoço as temperaturas já superavam os 40ºC, e as máximas viriam a atingir 42-45ºC, sob forte sol e antes da evolução explosiva das trovoadas.

Ao início da tarde, surgiram vários núcleos de trovoada dentro da nossa área de análise, de evolução rápida, alimentados pelo calor intenso e potenciados pela ação da brisa marítima, que aumentava a convergência nos níveis baixos, em especial no vale do Mondego e bacia do Tejo/Sado.
Alguns destes núcleos apresentavam ciclos de vida relativamente longos dado o suporte dinâmico e presença de algum shear vertical que incentivava a ventilação das torres convectivas.

Tivemos vários relatos de ocorrência de ventos fortes, associados a downbursts, queda de granizo e atividade elétrica intensa.

Durante a tarde, na região de Pedrogão Grande, passaram vários núcleos de trovoada fortes, e embora não se consiga pormenorizar exatamente se a causa do incêndio foi devido a descargas elétricas atmosféricas ou outra causa humana ou natural, temos um grande grau de certeza de que as rajadas severas associadas às trovoadas contribuíram fortemente para a tragédia.



Relatos locais:
Rajadas severas à passagem de frentes de rajada associadas aos downbursts- https://www.youtube.com/watch?v=XUAN-6Ij5Kw

Células convectivas com forte aparato elétrico e pouca precipitação- https://www.youtube.com/watch?v=ekOvjUYh0rA

CONCLUSÕES:
Os ventos fortes e caóticos tiveram, com certeza, um grande impacto no alastrar do fogo e, além disso, causaram a queda de árvores ou ramos, tornando a condução extremamente complicada.

Também os meios de combate ao fogo foram afetados por estas condições meteorológicas desfavoráveis.

As previsões meteorológicas lançadas não foram suficientemente eficazes e não havia preparação dos meios de combate para suportar tempo tão adverso.

A má gestão florestal e a desadequada preparação da sociedade para este quadro meteorológico, também terão contribuído para uma reação desadequada, resultando na tragédia em Pedrogão.

EM CASO DE TROVOADA qualquer pessoa deverá procurar abrigo, e numa situação que envolva ação direta de ventos severos, precipitação ou granizo significativos ou fenómenos como tornados ou similares, o sitio mais seguro para se estar é numa sala interior, sem janelas, ou numa cave ou abrigo estruturalmente são.

EM CASO DE FOGO, na maioria das situações, é seguro permanecer em casa, com as janelas fechadas, e se possível numa divisão baixa, onde o ar se vai manter mais frio e com menos fumo.

A exposição direta ao meio externo nestas situações é de grande risco, pelo que fugir, mesmo que de carro, é uma má decisão, a menos que seja feita sob ordem de evacuação e com pelo menos algumas horas de antecedência.

Fonte: Best Weather

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