29 julho 2017

Tragédia de Pedrógão Grande. Proteção Civil em alvoroço

No rescaldo da tragédia de Pedrógão Grande a Autoridade Nacional da Proteção Civil (ANPC) tem vindo a omitir informação ao país e o ambiente tem sido pesado entre os trabalhadores daquela autoridade que têm vindo a questionar a competência do comando no combate aos incêndios no terreno e gestão da estrutura do pessoal, disseo ao SOL fonte interna.

A mesma fonte apontou ainda inúmeras falhas e erros na condução dos trabalhos em Pedrógão, onde morreram, pelo menos, 64 pessoas.

Alguns funcionários da ANPC estão indignados com o rumo da comunicação e da gestão desta entidade e avizinha-se uma vaga de saídas de trabalhadores.

O primeiro a bater com a porta, no passado dia 6 de julho, foi o assessor de comunicação, Fausto Coutinho, alegando incompatibilidades diretas com o presidente da ANPC, sabe o SOL. O mesmo caminho foi seguido pela secretária do presidente da ANPC, Joaquim Leitão. E o SOL sabe ainda que a saída de funcionários da Proteção Civil não deverá ficar por aqui.

O SOL apurou que na origem da decisão de Coutinho está a indisponibilidade para lidar com o bloqueio de informação – tratando-se de um assessor para a comunicação – e com as incongruências nas decisões que foram tomadas durante o combate ao incêndio que provocou dezenas de mortes e duas centenas de feridos.

Falhas que nunca chegaram a ser admitidas publicamente pelo responsável máximo da ANPC.

Em causa está a ausência de sinalização de alerta vermelho para aquela zona no dia em que deflagrou o incêndio. Também não foram pré-posicionados os meios que seriam necessários caso ocorresse um incêndio. Decisões que terão sido tomadas pelo presidente da ANPC, Joaquim Leitão, apesar de ter conhecimento do risco da ocorrência de um fenómeno metereológico anormal, de acordo com as previsões feitas pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera, com quatro dias de antecedência.

Outras das questões que terão levado à saída do assessor foi a substituição em massa dos quadros operacionais e administrativos da Proteção Civil em plena época de incêndios. De acordo com a lista de despedimentos e substituições realizadas desde o início deste ano – a que o SOL teve acesso – a Proteção Civil já substituiu onze administrativos e 13 operacionais nos últimos meses.

Primeiras horas do incêndio sob comando de advogado

Uma das substituições operacionais que está a gerar mais desconforto entre os funcionários da Proteção Civil passa pelo afastamento de Luís Lopes, que desde 2013 era o 2.º Comandante Distrital de Operações de Socorro (CODIS) de Leiria, licenciado em Proteção Civil pelo Instituto Politécnico de Leiria e bombeiro há mais de 20 anos. Em 2015, Luís Lopes chegou a receber um louvor do Ministério da Administração Interna e da ANPC, devido às «excecionais qualidades profissionais», como pode ler-se no Diário da República.

Sem que tivessem sido explicados pela ANPC os critérios de avaliação, e recebendo apenas a justificação através de um despacho interno, Luís Lopes foi afastado da Proteção Civil em fevereiro deste ano. Cinco meses antes da fase crítica dos incêndios.

A saída deste operacional, proposta pelo comandante nacional Rui Esteves e assinada pelo presidente da ANPC, foi justificada num despacho interno por «alterações estratégicas e da nova dinâmica da ANPC».

Com a saída de Luís Lopes da Proteção Civil, ascendeu ao cargo Mário Cerol. Segundo o Sexta às 9 (RTP, dia 7 de Julho), Cerol é advogado e foi mandatário da candidatura do PS à Câmara de Alcobaça em 2009. Na mesma reportagem, acrescenta-se que Cerol também não terá grande experiência no combate a incêndios.

E, de acordo com o despacho de nomeação, publicado em Diário da República, Mário Cerol é licenciado em Direito pela Universidade Autónoma de Lisboa, contando no seu currículo como única experiência profissional nesta área ter sido comandante do corpo de bombeiros voluntários de Alcobaça.

Outra das mudanças no pessoal passou pela substituição de Paulo Jorge Machado, o responsável pela divisão de informática e de comunicações, que foi afastado da Proteção Civil para que o seu cargo fosse ocupado por um técnico de... recursos humanos.

Foi este tipo de decisões que terão inspirado a saída do assessor de imprensa.

Sucessivas falhas

De acordo com a fita de tempo, a que o SOL teve acesso, no dia 17 de junho, quando deflagrou o incêndio que começou em Escalos Fundeiros pelas 14h43, o 2.º Comandante Distrital de Operações de Socorro (CODIS) de Leiria, Mário Cerol, foi chamado ao teatro das operações às 17h08.

O 2.º comandante, que, à data do incêndio estava no cargo há apenas quatro meses, tomou a primeira decisão pelas 18h12, já o fogo lavrava há mais de quatro horas, de acordo com a fita de tempo. Foi a esta hora que Cerol ordenou que o grupo 02 de combate a incêndios florestais se movesse para Figueiró dos Vinhos e para Escalos Fundeiros. Por esta hora 60% do fogo «ardia livremente» com quatro frentes ativas.

E pouco tempo passou até que o cenário se tornasse dantesco com o fogo incontrolável e com as sucessivas chamadas de socorro por parte de civis. Dez minutos depois da primeira decisão de Mário Cerol, pelas 18h22 é registado na fita de tempo o primeiro ferido do incêndio: um bombeiro.

Pouco depois, já o combate às chamas ia em quatro horas, é comunicado ums egundo ferido, uma bombeira da Marinha Grande com «traumatismo no tórax».

Uma hora depois do teatro de operações estar sob o comando de Mário Cerol, pelas 19h36, sobem em flecha os pedidos de socorro e a comunicação de feridos. E poucos minutos depois, pelas 19h43, foram detetadas falhas no sistema de comunicação de urgência, o SIRESP.

A primeira vítima mortal foi registada às 21h20 junto à estrada que liga Vila Facaia para Lagoa.

Só depois de todos estes registos, que contavam já com 27 feridos, dezenas de pedidos de ajuda para evacuação, com vítimas inconscientes e queimadas, crianças desaparecidas e após as 47 mortes na estrada nacional 236-1, foi chamado ao teatro de operações o 2.º comandante operacional nacional, Albino Tavares, para assumir o combate às chamas.

O que terá sido omitido

De acordo com a fonte interna da Proteção Civil, são várias as questões que até hoje estão sem resposta. Não se sabe se chegou a haver uma lista com os feridos que resultaram do incêndio e quem tem a posse dessa informação. É também desconhecido quantos feridos ainda estão nos hospitais e se algum desses feridos morreu na sequência dos ferimentos. Além disso, as autoridades não têm na sua posse um levantamento de todas as pessoas que estiveram desaparecidas. Confrontado pelo SOL sobre o número de desaparecidos, o Ministério da Administração Interna garante que «nunca houve uma listagem de desaparecidos», o que, na altura do incêndio, impediu que os familiares dos habitantes ou das pessoas que se encontravam em Pedrógão conseguissem obter informação sobre o seu estado.


Fonte: SOL