14 agosto 2016

Opinião: Vamos lá repor a Verdade sobre a FAP e o C130 no Combate aos Incêndios Florestais

A utilização de meios aéreos no combate a incêndios no nosso país foi iniciada na década de 70, através da contratação de meios a empresas privadas pelos serviços florestais.

Neste período foi também utilizado por vezes 1 helicóptero Alouette III da FAP que transportava 2 elementos dos serviços florestais com um extintor de 6 Kg de Pó cada um.(!!!!????)

A partir de 1983 começaram a ser contratados a empresas privadas e a operar helicópteros com 1 balde com capacidade de 500 litros e também capacidade de transporte de uma equipa helitransportada de 5 elementos devidamente treinados.

Em 1984 foi criada uma comissão, no âmbito do Ministério da Defesa., para estudar e propor a aquisição de um sistema de meios aéreos que fosse verdadeiramente eficaz no combate aos grandes incêndios florestais.

Entre as hipóteses possíveis distinguiram-se a aquisição de aviões CANADAIR e a aquisição de sistema MAFFS (Modular Airborne Fire Fighting System) para instalação nos aviões C-130, estes já constantes no inventário da Força Aérea Portuguesa.

A decisão governamental foi no sentido de aquisição de dois sistemas MAFFS (Modular Airborn Fire Fighting System) para instalação nos aviões C-130 da Força Aérea Portuguesa.

As razões que determinaram a decisão terão sido exclusivamente de ordem financeira. Nos pratos da balança estavam, num lado, a compra de aviões que obrigava à criação de uma estrutura completa de apoio e, no outro, a compra de sistemas, amovíveis, para instalar em aviões já existentes e para os quais já existia estrutura de apoio.

Na altura a Comissão pronunciou-se pela excelência das características dos aviões CANADAIR para combate a incêndios.

Na verdade, o avião CANADAIR foi, e ainda é, o único anfíbio no mundo a ser desenhado especialmente para o combate a incêndios florestais, com enchimento automático enquanto voa sobre uma superfície de água. Outros sistemas atualmente existentes não são mais do que adaptações em aeronaves desenhadas e construídas para outros fins.

A operação conjunta dos dois sistemas adquiridos, nunca foi possível por falta de disponibilidade da FAP em ter dois aviões C130 em simultâneo para o combate aos incêndios.

Mais tarde, com o crescendo da utilização dos aviões C-130 em apoio das FND (Forças Nacionais Destacadas) na Bósnia, Kosovo, Timor, etc., a disponibilidade daqueles aviões no âmbito do Combate a IF (Incêndios Florestais) tornou-se cada vez mais irregular conduzindo ao abandono do sistema, por falta de capacidade da FAP.

Portanto ninguém tirou a FAP do combate aos IF ela própria é que se retirou.

No início dos anos 90 foi criado novo Grupo de Trabalho, já que a união Europeia tinha disponibilizado 75% da verba de aquisição de 4 Canadair, a fundo perdido.

Também aqui por indisponibilidade da FAP em operar os Canadair, porque representava um enorme gasto em infraestruturas, nomeadamente a constituição de uma nova esquadra de aeronaves, todos os aspetos logísticos e de manutenção a par da certificação de pilotos e a sua rotatividade.

O Governo tomou então a decisão de comparar 4 helicópteros ligeiros. Foi lançado o concurso público internacional que no final foi anulado porque nenhum dos concorrentes apresentou propostas que cumprissem na totalidade o caderno de encargos.

No início do século outro Grupo de Trabalho foi constituído, este já com a incumbência da aquisição de Canadair, mas também com a incumbência de verificar as condições que a FAP queria e podia ter para esta operação.

No final do tempo previsto para as conclusões a FAP informou que não pretendia operar mais nenhum modelo de aeronaves com exceção de modelos iguais aos que possuía ou outro modelo, se fosse para substituir integralmente uma das esquadras. E informou mais. Informou que o que pretendia era aeronaves de transporte e não Canadair que não serviam para as suas missões.

Em 2005 outro Grupo de Trabalho. Desta vez o ministério da defesa informa que no que diz respeito à sustentabilidade da frota (manutenção e cadeia logística, sem pessoal), de dez helicópteros e para cerca de 2500 horas de voo/ano, a FAP gasta € 3.500.000 por ano para aquisições de consumíveis e materiais para reparação e € 3.000.000 por ano para realizar as manutenções programadas.

Deste grupo de trabalho saiu a decisão da compra pelo Estado de 6 helicópteros Kamov e 4 helicópteros ligeiros Ecureill AS 350.

A partir daqui foi criada a Empresa de Meios Aéreos do Estado (EMA), que já não existe.

A FAP para operar meios de combate a incêndios vai ter de formar pilotos desde o seu início com todos os custos inerentes.

Um curso civil de piloto comercial de helicópteros (pago pelos próprios pilotos) hoje custa mais de 100 mil euros, coisa que os pilotos militares recebem gratuitamente dado pela Força Aérea, num curso que demora cerca de 2 anos, para militares em regime de contrato e mais de 5 para militares do quadro (Academia da Força Aérea), sendo que algumas qualificações são depois obtidas nos Estados Unidos.

Após a formação ainda terão que fazer centenas de horas de treino para adquirir a proficiência necessária. As condições mínimas, por exemplo para admissão de um piloto comandante para o Kamov é de 2.500 horas de voo em helicóptero. Parece-me que a FAP só terá pilotos aptos daqui a muitos anos.

Perante esta situação quanto custará a formação de um piloto à Força Aérea para combate a incêndios florestais?

Acrescento ainda que os pilotos contratados da FAP, saem ao fim de 6 anos de serviço e os do quadro antes dos 50 anos de idade. Estes, os do quadro, vão para o Estado Maior da Força Aérea em Alfragide, não se coibindo de manter qualificações mínimas para continuarem a receber o subsídio de risco de voo.

A FAP todos os anos gasta fortunas a formar pilotos, tendo também em linha de conta que vários deles antes dos 50 anos deixam de voar e muitos pedem muito antes disso, (por volta dos 35 anos de idade que é o auge da carreira), o abate ao quadro da FAP para irem voar em companhias privadas.

Falemos agora em custos...

Relembro os milhões de Euros que custa a manutenção dos atuais EH-101 pagos ao fabricante para fazer a manutenção de base, onde acrescem os custos com as centenas de militares envolvidos na manutenção de linha, componentes, ferramentas, etc, não esquecendo todos os custos que ninguém conhece, associados a uma base militar (desde o cozinheiro, ao militar da policia aérea que levanta a cancela, ao bombeiro, ao barbeiro e outras dezenas de especialidades que lá existem).

As frotas da FAP têm uma taxa de prontidão média de 47% ou seja, das 130 aeronaves da FAP, apenas 60 se encontram prontas para voo. Veja-se o exemplo do Helicóptero EH-101, que não é de forma alguma adequado para o combate a incêndios, mas é uma aeronave ocidental com tecnologia de ponta... (apenas 1 custou mais do que os 6 Kamov) foram comprados 12... quantos estão operacionais para voo??? QUATRO (4) !!!!!??????

É esta operacionalidade que se pretende no combate a incêndios florestais??????

Apesar da quantidade de meios e de pessoal de que a FAP dispõe, esta só terá condições para uma operação da envergadura de combate a incêndios florestais com um brutal investimento em novos meios adequados à missão, a entrada de mais umas centenas de militares com os custos inerente à sua formação e a constituição de tantas esquadras, quantos os modelos de aeronaves.

Depois de se conhecer toda a informação necessária que é muito mais do que esta que vos deixo, era bom saber os custos totais de toda a operação de colocar a FAP no combate a incêndios florestais... e a taxa de prontidão dos meios... mas sem truques.

Eu pessoalmente preferia gastar esses milhões num Navio Logístico Polivalente para a Marinha que é prioritário e fundamental, até para apoio às nossas ilhas em caso de desastre natural ou antrópico.

Poderá confirmar todos os dados operacionais da FAP nos Relatórios de Gestão da FAP e no relatório final da Comissão Especial para o Estudo dos Meios Aéreos de Combate aos Incêndios Florestais 2005.
 
 
Paulo Gil Martins
Agosto de 2016