15 agosto 2016

Opinião: Negócio do fogo

Sobre os incêndios, assinalem-se as corajosas declarações do secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes. Disse o secretário de Estado, e passo a citar, "há muito interesse por detrás disto tudo" e que "há quem diga que a indústria do fogo dá dinheiro a muita gente". Referiu ainda acreditar que "uma parte significativa dos incêndios têm mão criminosa, pois deflagram às 4 da manhã com frentes de cinco quilómetros de extensão".

Quanto à mão humana por detrás dos incêndios, ela existe sempre, umas vezes de forma criminosa, outras negligente. Mão criminosa naqueles que são postos com intenção dolosa, como o da Madeira, e por negligência, como nos casos das queimadas, das beatas de cigarros ou outras. Mas o que é novo nas declarações do secretário de Estado é o Negócio do Fogo. Estas declarações têm um problema: até hoje, não me recordo de ter sido possível ligar um dos muitos incendiários detidos e condenados a um qualquer interesse privado com os fogos. Esta ligação nunca foi comprovada. Mas que se fala que ela existe, lá isso fala. Mas não tenhamos nenhuma dúvida: existe mesmo um negócio do fogo. Se o Estado gasta anualmente cerca de 100 milhões de euros com o combate aos incêndios, existe um negócio. Este dinheiro sai do Estado e tem que ir para alguém, mesmo que seja para pagar um serviço.

É por isso que o secretário de Estado tem de nos dizer quem lucra com esse dinheiro, ainda que de forma lícita. Temos o direito de saber quanto é pago pelos meios aéreos no combate aos fogos e a quem é pago, como temos de saber quanto paga o Estado pela manutenção dessas aeronaves e a quem, como temos de saber a quem são adquiridas as mangueiras, os carros, as fardas, os extintores e quanto se gasta com a compra deste material. Por último, temos de saber se alguma destas empresas, ou as pessoas que as lideram, direta ou indiretamente, estão ligadas ao combate aos incêndios, nomeadamente aos bombeiros.

Carlos Anjo
Correio da Manhã