14 agosto 2016

Opinião: Bombeiros, não!

A maioria dos incêndios começa num metro quadrado de chão. A ignição, seja criminosa ou acidental, ateia aos primeiros pastos e arbustos, o vento acelera, abre-se uma, duas ou várias frentes mas começa ali, naquele maldito metro quadrado, e vai por aí fora comendo florestas, galgando montanhas. Brutal, louco e assassino.

A melhor maneira de matar um incêndio é chegar depressa ao palmo de chão onde começou. Ainda não cresceu, ainda não ganhou a força com que desfaz a vida. E para chegar depressa e conseguir dominá-lo são necessários dois protagonistas a trabalhar em sintonia : uma floresta tratada, protegida, vivida e, por outro lado, os homens que correm ao primeiro alerta, ainda antes de os bombeiros chegarem e combaterem, com saber técnico, o Demónio em chamas.

Faltam as duas coisas. Falta a tal floresta organizada, planificada. Faltam os pastores pelas serranias, os almocreves pelas planícies, aldeias e vilas com vida, em vez do deserto humano em que se tornou o interior do País, habitado por velhotes sem força para o chamamento a esse metro quadrado fundador de todas as tragédias.

Escutamos há anos os mesmos lugares comuns, as mesmas banalidades, com que a inacreditável ministra dos fogos e o inenarrável ministro do ambiente nos brindaram nos últimos dias. Há décadas que se ouvem as mesmas vulgaridades, palavras ocas que nem o vento leva porque delas se envergonha. Não basta investir na floresta ordenada e capaz. É urgente investir nas pessoas, no repovoamento, na ressurreição do interior do País. Para que se sinta cada metro quadrado como seu. Para que os bombeiros se tornem o melhor auxílio em vez de serem os únicos combatentes. É este o drama do fogo. A indiferença e a falta de coragem, o desprezo e a negligência com que a política estupidamente permite que se mate, ano após ano, uma riqueza incalculável.

Por um metro quadrado. E uma cínica razão: o interior do País não dá votos.


Francisco Moita Flores
Correio da Manhã