08 outubro 2014

Suspeitos de atearem fogos no Caramulo com versões diferentes

Os dois jovens acusados de terem ateado fogos na Serra do Caramulo optaram por prestar declarações esta terça-feira durante a primeira sessão do julgamento. Um confessou os factos da acusação, o outro negou a sua autoria.

A primeira sessão do julgamento dos dois suspeitos de terem ateado fogos na Serra do Caramulo em Agosto do ano passado e que provocaram a morte a quatro bombeiros foi marcada pela audição dos acusados. Tanto Luís Patrick como Fernando Marinho optaram por falar perante os jurados e o colectivo de juízes. O primeiro negou estar envolvido nos factos, enquanto que o segundo admitiu que “andou na mata a atear fogos”.

Segundo a acusação, os dois arguidos atearam vários fogos na noite de 20 de Agosto de 2013, deslocando-se numa motorizada. Os acusados respondem por crimes de homicídio qualificado, incêndio florestal e ofensa à integridade física.

Durante a manhã foi ouvido, na secção de proximidade de Vouzela, Luís Patrick. O arguido disse ser “falso tudo o que se diz” e que não praticou “nenhum dos factos”.

O arguido relatou os acontecimentos da noite de 20 de Agosto. Contou que esteve com Fernando Marinho até perto das 20h00, que depois de ter ido tomar banho foi até a um café ter com uma amiga e daí até à praia fluvial de Alcofra onde esteve a ingerir bebidas alcoólicas com mais amigos. Admitiu, apesar de não ter a certeza, que o Fernando terá chegado à praia fluvial na altura em que saiu.

Perante a pergunta do juiz presidente se sabia porque o nome dele estava envolvido no caso, o arguido respondeu: “Não faço a mínima ideia”. Esclareceu ainda que regressou a Portugal – estava emigrado no Luxemburgo para onde tinha ido a 28 de Agosto – porque não tinha "nada a esconder”.

O advogado de Luis Patrick, na sua exposição introdutória, disse que o seu cliente “não tem nada a ver com os incêndios” e que os factos descritos na acusação “não são exequíveis”.

No período da tarde, o arguido Fernando Marinho esteve a ser ouvido mais de três horas. Logo ao início, confessou ser “verdade” os factos da acusação. Relatou que passou quase todo o dia com Luís Patrick, que combinaram encontrar-se mais tarde num café, que estiveram juntos na praia fluvial a beber e que foi depois no regresso a casa que Luís Patrick, que conduzia um motociclo, lhe disse que “iam ali acima e já vinham”.

De acordo com Fernando Marinho, os dois pararam na zona de Castanheirinho de Alcofra, para urinar. Disse que quando Luís Patrick voltou de uma rampa viu uma coluna de fogo. Ainda de acordo com o relato de Fernando Marinho, os dois arrancaram de novo no motociclo e pararam na Barragem da Lapa da Moruje onde Luís Patrick terá dito que “só lhe apetecia chegar fogo”. Nesse local, segundo o arguido, o amigo terá pegado no isqueiro e “acendeu fogo a umas ervas que lá estavam à beira do estradão”.

Os dois colocaram-se de novo em andamento e seguiram em direcção a uns barracões onde estiveram a fumar, voltaram para trás e dirigiram-se para a zona das eólicas de Silvares. Nesse local, Fernando Marinho contou que foi desafiado por Luís Patrick para atear fogos. “Ele disse não és homem não és nada se não chegares o fogo às ervas”, disse durante a audição.

À pergunta do juíz presidente, o arguido afirmou que "ateou cinco ou seis fogueirinhas" na berma da estrada, que algumas se apagaram, mas outras alastraram-se. No regresso a casa, os dois jovens passaram pelo local do primeiro incêndio que já estava a ser combatido pelos bombeiros. Fernando Marinho confessou que voltou aos locais do crime mais tarde com um outro amigo que lhe telefonou para irem ver o fogo.

Durante a inquirição, o arguido assumiu a responsabilidade de ter ateado os fogos nas eólicas, desmarcou-se dos outros dois incêndios e que os dois nunca falaram sobre o sucedido. Acusou o Luís Patrick de estar a mentir e admitiu sentir receio dele. Negou também que estivesse a contar uma mentira para implicar o amigo num acto criminoso.

Antes de terminar a sessão, foi ouvido uma única testemunha das 18 que estavam arroladas. O pai de Ana Rita Pereira, um dos quatro bombeiros que morreu na Serra do Caramulo, foi chamado a depor e lembrou a filha como uma pessoa alegre e trabalhadora.

Notícia actualizada às 20h00. Acrescenta a sessão da tarde do julgamento.


fonte: Sandra Henriques / Público