10 outubro 2014

Duarte Caldeira: Desastre Florestal

Uma análise detalhada dos indicadores referentes aos incêndios florestais que anualmente tomam conta da agenda mediática da silly season (conceito anglo-saxónico que se refere ao período de férias de verão de políticos e outros) permite concluir sobre a estreita relação entre a meteorologia e a ocorrência dos referidos incêndios. Ou seja, se os verões são molhados e com temperaturas amenas, então há menos incêndios e, por consequência, menos área ardida.

Foi assim em 2007 e 2008. Volta a ser em 2014. De acordo com relatório do ICNF, referente ao período de 1 de Janeiro a 30 de Setembro, este ano registaram-se 6.936 ocorrências (o melhor ano desde 2004) e 19.562 hectares de área ardida (o segundo melhor, logo a seguir a 2008).

Pego nos recortes de jornais dos referidos anos 2007 e 2008, bem como do ano em curso e vejo neles espelhadas as naturais manifestações de regozijo dos governantes, embora expressas de forma diferente. Mas todas têm em comum uma curiosa particularidade: a glorificação do “São Pedro” e o esquecimento das responsabilidades políticas dos Governos pelo potencial de risco das florestas portuguesas, face ao abandono a que estão condenadas.

Tudo indica que este ano, quanto a incêndios florestais estamos conversados. E ainda bem. Mas não tenhamos ilusões. Se o perfil meteorológico mudar – e o mais provável é que mude – os incêndios voltarão e, com eles, todo o seu potencial de destruição. Afinal o que não ardeu este ano tenderá a arder no próximo ou nos que se seguirão.

A questão dos incêndios florestais não está no Combate. Está a montante deste. Muito se evoluiu ao longo dos últimos 10 anos no ponto de vista da estratégia, da formação dos Bombeiros e da modernização dos equipamentos.

Pelo contrário, o que acontece na política florestal é um verdadeiro desastre e está à vista desarmada, um pouco por todo o território.

No domínio da Protecção Civil e dos Bombeiros tem havido a preocupação de retirar lições, ao longo dos anos e, deste modo, melhorar a eficiência do combate. Mas o que dizer do ordenamento florestal? Onde estão os resultados dos milhões de euros investidos em projectos, estudos e outras formas mais ou menos engenhosas de alguns ganharem dinheiro? O que anda a fazer o Ministério da Agricultura?

São perguntas a fazer agora, precisamente porque o “São Pedro” tem sido amigo. Porque há muitos portugueses que gostaram do verão que tivemos – tal como o senhor Ministro da Administração Interna gostou – é que se impõe como oportuno questionar o Governo (de que o ministro Miguel Macedo faz parte) sobre para quando a prometida politica florestal?

Os incêndios florestais são um sério problema nacional, que os governantes continuam a empurrar para diante. É certo que há anos como este que ajudam. Mas também há anos como o de 2013 e não convém esquecê-los, com a ligeireza com que muitos parecem já ter esquecido. E não deviam!

Eu sei que não é habitual os cidadãos questionarem o poder político sobre o este decide. Mas eu quero, aqui e agora, questionar os senhores deputados: Para que serve o Relatório que os senhores aprovaram por unanimidade na Assembleia da República, no passado més de Maio?

Agora uma pergunta à senhora Ministra Assunção Cristas e ao Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho: o que é que o Governo está a fazer – mesmo sem o Secretário de Estado das Florestas, que acaba de se demitir – no domínio do sempre adiado ordenamento da floresta portuguesa? Estas são perguntas de um cidadão inquieto que recusa o silêncio, perante a impunidade de que beneficia o poder politico, perante o crime de omissão, no processo de destruição do património florestal do país.
 
 
Duarte Caldeira
  Repórter Caldeira