14 setembro 2014

"Bombeiros impotentes para lidar com o Inferno"

Nas margens do Ceira a calma dos dias de sempre estragada com o roncar dos motores das motas que vinham para a concentração. Eram às centenas. O Multibanco esgotou as reservas, ainda que porventura tenha sido reforçado a contar com mais gente a precisar de dinheiro e enquanto uns esfregavam as mãos por verem ali maneira de amealhar bastante mais do que um ano de pasmaceira garantiria, outros gritavam raios e coriscos por terem escolhido terra perdida, calma, e agora se verem no meio de tantos metros cúbicos de cilindrada em motores que toda a gente conhecia ou, pelo menos, já ouvira falar.
Com a calmaria quebrada e a garantia de que nos dois dias seguintes o Ceira haveria de ser falado pela concentração de motas, o que preocupava era a cor do céu à mistura com o cheiro tramado mas agradavelmente intoxicante de pinheiro bravo queimado. Foi num instante: primeiro, começaram a aparecer umas pequenas nuvens fugidias, acastanhadas mas sem cheiro; depois, o sol ficou vermelho e as nuvens ficaram bem mais densas até se tornaram numa só. Aí, o cheiro já só se suportava pelo maquiavelismo patético de quem já estava farto de ver o país a arder pela televisão. Era uma sensação estranha de se explicar: em todo o lado onde houvesse canal televisivo as imagens que se viam eram as mesmas: gente a correr com baldes de água, mangueiras de regar jardins a cumprir a função de agulhetas de 50, pessoal com olhos cansados de noites perdidas e lenço branco, mas seboso a tons de castanho, a tapar-lhes metade da cara. Depois vêem-se também carros de bombeiros em correria desenfreada, meia dúzia de palavrões estrategicamente ditos para que os microfones acoplados nas câmaras de televisão os captem e gente, muita gente a dizer mal dos bombeiros e, geralmente, a invocar o nome de Deus nos impropérios.

Assim: "Quando são precisos nunca aparecem, valha-nos Deus!"
Foi este o quadro do Ceira no fim-de-semana. Motas para baixo e para cima, cavalinhos e "cavalonas", bebedeiras - muitas - e o sol tingido de vermelho envergonhado não se sabe se pelo fogo se pela sina anual de ver arder a floresta à volta. É estranho mas a 250 quilómetros de distância, aqui pelos arrabaldes de Lisboa, o frenesim era quase igual àquele que se vivia por terras de Coimbra. (...)
Em Lisboa era diferente. O frenesim tinha tão só a ver com o facto de ter caído no quartel a informação de que, por indicação do Centro Nacional de Operações de Socorro (CNOS), se admitia como certa uma ida em coluna - o termo é militar mas aplica-se - de gente e autotanques dos corpos de bombeiros da zona para os fogos que tingiam de negro a mancha verde que ainda sobrava no distrito de Coimbra. Desde que o telefone "vermelho" - de ligação directa ao centro decisor - tinha tocado que se corria à lufa-lufa para demonstrar total disponibilidade para seguir na "excursão". Vivia-se, assim, uma azáfama esquisita nas gentes que, um dia, haviam jurado sobre o mesmo regulamento: o de bombeiros voluntários.
Os de Coimbra, ciosos, justamente ciosos, queriam "dar cabo dele" depressa para evitar que os "snobs" de Lisboa lhes fossem dar ordens; os de Lisboa, peneirentos, não se cansavam de fazer crer (bastava olhar para eles) que o fogo do Centro só seria resolvido, mesmo, com a sua chegada.
E foi assim - uns a considerar que não precisavam de bombeiros da cidade e outros a considerar que os da terra não se amanhavam com o fogo - que uns e outros foram sentenciados pela rádio do comando: "Coluna a caminho. Bom trabalho!" Não se sabe quem falou nem interessava muito. Para uns e para outros, os lugares de comando obedeciam àquilo que eles entendiam como um "dolce fare niente" (...)
E, se é estranho que em casa, quem está por fora dos bombeiros mas vive com eles, desse graças ao Senhor por o fogo estar lá por longe, em cada farda, em cada capacete ou dono seu, a ânsia era a de saber as horas da partida. Estranha vocação, esta, de achar que salvar, mais do que uma obrigação, é uma filosofia de vida. Estranha vocação, esta, de encontrar numa guarnição quem assuma que ir para o fogo a 250 quilómetros de distância é contributo suficiente para dar cabo dele e outros tantos que encaram o "passeio" com isso mesmo: "uma ida ao fogo".
Recebida a indicação de partida, a tarefa que se seguiu foi a de informar, lá para casa, que o próximo dia, os próximos dias, sabe-se lá por quanto tempo, o nome e fotografia do bombeiro bem que podiam ter por cima o carimbo "ausente". Conversas de telefone rápidas. Assim:
- Vou seguir na coluna para Coimbra. Avisa o patrão - dizia o bombeiro à mulher.
- Ah vais? Pois olha que... 

 Não tinha tempo a mulher de dizer o que lhe dava na real gana. Que o patrão já tinha avisado que os clientes não se interessam se os empregados são bombeiros ou não - querem é prazos cumpridos - que uma ida em coluna significava noites sem dormir sempre à espera de notícias más vindas pela televisão, pela rádio ou pelo telefone numa chamada seca a dar conta de um problema ou lamento. Os bombeiros que iam em coluna eram, aqui, estranha contradição, suficientemente egoístas para, na busca de salvar quem não conheciam, deixar os seus com o coração nas mãos. Nunca ninguém há-de perceber esta contradição. É bem verdade que no dia seguinte, na conversa de circunstância feita junto à banca da fruta no mercado da terra, bem que a mulher haveria de ouvir loas à coragem do marido; bem que as imagens da televisão haveriam de privilegiar carros de bombeiros vindos de longe, imagens de combatentes distantes. Haveriam, essas imagens, de dar imagem maior do monstro - que de tão grande justificara deslocações tamanhas. Bem que haveria de ser assim que, se o ego ficava maior, o coração haveria de bater mais forte e descompassado numa arritmia estranha só estabilizada quando o telefone voltasse a tocar para dizer:

"Estou de regresso. Saímos daqui a nada..."
Não foi por isso de estranhar que motores a trabalhar e quilómetros palmilhados, desajeitados conforme se podia na caixa de transporte dos carros, muitos fossem os que, ainda nem metade do caminho estivesse percorrido, davam por si a pensar se valia a pena tal sacrifício. Uma hora depois da saída do quartel as conversas já tinham esgotado os "depósitos" de treta que faziam parte das reservas de cada um. Por dentro, sem que ninguém os ouvisse, muitos assumiam o patamar - não se sabe se de crítica se de inveja - de pensar que a obrigação de tal sacrifício haveria de caber aos que o Estado paga por força de uma inscrição atempada nos Grupos de Primeira Intervenção - que por não terem razão para actuar nas suas áreas de intervenção, eram chamados a actuar nas áreas vizinhas. E, enquanto isso, nas guerras corporativas haveria de se ouvir nas notícias o reclame de críticas daqueles que, por serem profissionais e por isso remunerados, haviam ficado nos quartéis por capricho dos dirigentes (sabendo-se que o grande desejo deles era saírem para um qualquer lugar - porque afinal, também estes são bombeiros como os outros e sentem na pele o orgulho e brio de tão nobre missão).
Ainda assim, os que chegaram ao destino, à porta da "cidade dos doutores", fizeram-no com tamanha genica que, ali chegados, o importante agora era trabalhar. E as discussões parvas que se ouviam agora teriam pouco a ver com estratégias de combate ao fogo. Implicitamente desenhadas por quem conhece o terreno - os bombeiros da zona:
- Vocês vieram de tão longe - dizia o chefe o Coimbra - é melhor irem descansar e começar amanhã de manhã neste lado da serra. E apontava para o mapa.
- Isso é que era bom. Eu e os meus homens fizemos cinco horas de caminho para agora ir dormir? Isso é que era bom. Vamos actuar e já...
E nem os argumentos de que à meia-noite, sem conhecerem a as manhas da serra, seguindo a intuição da actuação pelo desenho que o fogo riscava a serra, podia ser perigoso ir para o terreno, demovia os que se tinham feito à estrada. É por isso que, dizem, as críticas que se seguem de uma intervenção desta natureza vão quase e sempre no sentido de apontar erros ao posicionamento dos bombeiros no combate as chamas. É por isso que as televisões enchem os noticiários de gente mal-amanhada, apanhada de surpresa pelos estalidos da caruma a rebentar quando dormiam, a gritar: "Que é que eles andam aqui a fazer?" Isto logo seguido de um plano de corte onde se vê passar um carro de bombeiros de corpo geograficamente instalado a dezenas - às vezes centenas - quilómetros de distância do fogo.
Os bombeiros que partem de longe para o fogo não conhecem o terreno que pisam. No fim, quando os presidentes da câmara enchem os salões nobres para as conferências de Imprensa são tratados como outros: a sua descoordenação foi responsável pela destruição da serra. Reclamam aviões, reclamam subsídios, reclamam demissões e fazem política, esquecendo-se que, meses antes, haviam recusado as máquinas de rasto para abrir aceiros na serra porque, na devida altura, esse trabalho haveria de ser feito por cantoneiros desempregados e sem custos. Sabendo-se, também, que os cobres poupados na contratação das máquinas, haveriam de ser canalizados para o foguetório das festas da cidade e para o lanche aprimorado quando o "ministro de tal" visitou a terra.
Pavões! Os homens da terra, não os bombeiros.

No meio dos recortes do cacifo, arrumados agora um a um numa caixa de sapatos, Carlos acabou por encontrar um exemplar do "Correio da Manhã", onde esta ida a Coimbra era relatada ponto por ponto. Estava ali guardado porque a primeira página do jornal, dobrada em quatro, tinha a fotografia de um bombeiro, papos de olhos pretos e, para lá dos papos, os olhos do rapaz que nem precisara de ir tão longe, em coluna e ralações, para se ficar na berma da estrada. Carlos arremessou com violência o pedaço de jornal para o monte de recortes que passo a passo, arrumavam a vida do miúdo. E arremessou, assim de ganas, porque ao lado da fotografia o título dizia  
"Bombeiros impotentes para lidar com o Inferno".
Impotente sentia-se ele, ali, a arrumar as coisas do "filho" como se estivesse a arrumar-lhe a vida. Não haveria de ver o recorte nunca mais. Se não fosse por respeito e controlo da raiva, sabia bem qual o destino a dar ao pedaço, já amarelecido, de jornal.
"Impotentes para lidar com o Inferno"... "Impotentes para lidar com o Inferno"... O título, em corpo 32, a negro, batia-lhe na cabeça como um martelo pilão. Impotente estava ele agora para trazer de volta o miúdo. Que Inferno, dois dias depois, tinha desaustinado para outro lugar e a cidade voltava agora a ser notícia mas pelas latadas dos estudantes e as festas do futebol. Estava impotente o Carlos. Porque a cidade perdera-lhe o respeito.
Como sempre, aliás. Experimente-se ver os bombeiros lavados e vestidos à civil, sem farda nem divisas que os identifiquem, e não se lhes há-de notar qualquer diferença dos demais cidadãos. Até porque, à sua maneira, todos se sentem um bocado bombeiros: nos "bitaites" que são capazes de mandar perante uma qualquer situação de perigo; no sentimento que todos têm (ou dizem ter) de serem muito bem capazes de ajudar o próximo sem pedir nada em troca. Se é esta a síntese dos bombeiros, então, em cada português há um "bombeirinho" à espreita. Numa ou noutra ocasião; num ou noutro local.
A verdade é que não é assim. Ainda por cima, com uma discussão permanente sobre a profissionalização dos "soldados da paz", não falta quem se disponibilize para criticar sempre que algo corre mal. Ou melhor: sempre que algo não corre segundo lhe agrada.

E, então, sucessivamente, todos os dias, sempre, há-de aparecer gente a reclamar pela intervenção tardia dos bombeiros ou, ao contrário, pela intervenção rápida mas sem critério; a reclamar por falta de organização ou por organização a mais que os levou a estar uns bons cinco minutos a estudar mapas antes de intervirem; quem se queixe que a ambulância era alta; o bombeiro gordo; a maca pesada e o bombeiro magro.
São discussões que mantêm vivas as pessoas, mas que aborrecem quem por lá anda.

fonte: texto transcrito do livro Fénix - Histórias de Vida (e morte) dos Bombeiros Portugueses
de autoria Paulo Barbosa