04 agosto 2014

Feridas abertas pelo fogo há dois anos marcam o dia-a-dia na Serra de São Brás de Alportel

Com 73 anos e depois ter visto quatro incêndios na serra onde sempre viveu, Celestina Viegas sabe que não volta a tirar cortiça dos sobreiros, queimados há dois anos, no grande incêndio de Tavira e São Brás de Alportel.

Foi a 18 de julho de 2012 que o fogo deflagrou, na Catraia, Tavira, depressa se alastrando ao território vizinho de São Brás de Alportel, onde acabou por provocar maiores danos, atingindo metade do concelho e afetando 40 famílias, assim como ricas áreas de sobreiros e apiculturas.

“Nunca houve um incêndio mais forte aqui nestas terras e já vi quatro incêndios aqui. Arrastou-me tudo, queimou-nos tudo quanto a gente tinha, é uma tristeza”, desabafa Celestina Viegas, ainda a refazer-se do choque de quem perdeu parte do que também era seu.

Apesar de a sua casa, em Monte Capitães, na serra de São Brás de Alportel, não ter sido atingida, o fogo levou-lhe os sobreiros de onde a cada dois ou três anos tirava cortiça, praticamente todas as oliveiras de onde extraía as azeitonas para o azeite, assim como as alfarrobeiras, cujo fruto vendia para ajudar no sustento da casa.

“Aqui não veio ninguém, nem helicópteros, nem bombeiros, não veio ninguém. O fogo vinha com mais de 50 metros de altura”, conta a idosa, que se vale da companhia do marido e da vizinha, que nunca mais quis dormir na casa que o fogo destruiu, logo ali ao lado, mesmo depois de recuperada.

A poucos quilómetros dali, no sítio da Cabeça do Velho, Júlio Custódio ainda se emociona a recordar o dia em que as chamas lhe levaram parte da casa, lutando para tentar voltar à normalidade depois de a casa lhe ter sido entregue recuperada, no verão passado.

“Nunca vi coisa que me fizesse sofrer tanto, a não ser a partida dos meus pais. Foi a coisa que eu mais sofri. Ao longo do tempo vai disfarçando um pouco e a gente vai-se normalizando, mas a gente nunca esquece por completo”, desabafa.

Foi através do projeto Lara, impulsionado pelo Centro de Cultura e Desporto de São Brás de Alportel, em parceria com a autarquia, que a casa de Júlio Custódio foi recuperada, o que de outra maneira, com os seus escassos rendimentos, seria impossível de conseguir, admite o próprio.

Além da reabilitação das casas, o projeto teve um papel fundamental na recuperação psicológica e da autoestima das pessoas atingidas pelo incêndio, que frequentaram aulas de teatro, informática e fizeram passeios, entre muitas outras atividades.

A coordenadora do projeto Lara – nome inspirado na residente mais nova da serra de São Brás, hoje com três anos -, explicou à Lusa que o incêndio provocou um sentimento de “partilha coletiva da dor”, atingindo toda a comunidade.

“Se este tivesse sido um fenómeno que atingisse meia dúzia de pessoas ou situações muito pontuais não se desenvolveria o trauma de que nos apercebemos que se propagou por toda a população”, observa Vanessa Sousa, sublinhando que 91 famílias foram beneficiadas por apoio psicológico e social.

Vanessa Sousa sublinha que além da perda do recheio das casas, que continha as memórias de uma vida, muitas pessoas perderam todo o património que construíram durante anos, nomeadamente a produção de sobreiros, muitos plantados há décadas por essas pessoas, e que agora levam mais de 30 anos para voltarem a dar cortiça.

No que respeita à reflorestação da área ardida, ainda pouco foi feito, situação que o presidente da Câmara de São Brás de Alportel justifica, em parte, com o facto de a maioria dos proprietários ter desistido das candidaturas a financiamentos devido à burocracia.

“A própria Câmara poderia desenvolver alguns projetos para conseguir financiamento para a reflorestação, no entanto, não tinha financiamento a 100% e acabou por se tornar complicado”, lamentou Vítor Guerreiro.

Tal como em São Brás, onde a vigilância foi reforçada, com militares do exército, e onde se aplicaram algumas medidas para tentar prevenir futuros incêndios, também em Tavira o presidente Jorge Botelho tentou corrigir algumas dificuldades detetadas no incêndio.

Em Tavira foram feitas bocas de incêndios, recuperados caminhos, abertos novos caminhos, construídos charcos de água para os helicópteros recolherem água, entre outras medidas, explicou o autarca.

Os incêndios que atingiram a Serra do Caldeirão, entre Tavira e São Brás de Alportel, de 18 a 21 de julho, queimaram uma área aproximada de 24 mil hectares, sobretudo espaços florestais.


Diário Digital/Lusa