02 julho 2014

Epidemia do vírus Ébola exige "medidas drásticas" diz OMS

"É possível combater este tipo de vírus", reconheceu hoje a Organização Mundial de Saúde, durante uma reunião de emergência com os ministros de 11 países da África ocidental reunidos em Acra, sobre a epidemia que assola três países e cujo número de casos aumentou um terço na última semana. A OMS acrescenta que o surto tem características extremamente complexas e são por isso necessárias "medidas drásticas".

Desde fevereiro registaram-se 467 mortos entre 759 casos identificados de Ébola, de acordo com a OMS. Os números incluem casos confirmados, prováveis e suspeitos, na Guiné-Conacri, Libéria e Serra Leoa.

Os números foram conhecidos na segunda-feira na véspera da reunião em Acra e, a confirmar-se que todas as mortes se devem ao Ébola, trata-se de um salto de 17% nas mortes e de 20% de casos numa única semana.

A organização Médicos Sem Fronteiras tinha já afirmado dia 23 de junho que a epidemia estava "fora de controlo" e que deveria atingir novos países em breve.

O surto é o mais grave jamais ocorrido desde que o Ébola foi descoberto há 38 anos, mas desta vez o vírus não atua sozinho, estando a ser registados casos de outras febres hemorrágicas como 'Lassa' e 'Crimeia-Congo'.
Epidemia ganha força
Segunda-feira contabilizavam-se na Guiné-Conacri 303 mortos (193 dos quais, sabe-se com elevado grau de certeza, se deveram ao Ébola), na Libéria 65 (33 atribuídos ao Ébola) e na Serra Leoa 99 (65 devido ao Ébola).Os primeiros casos da epidemia registaram-se naGuiné-Conacri, em janeiro, tendo a OMS enviado para o país 150 especialistas. Serra Leoa e Libéria registaram igualmente focos de infeção nas semanas seguintes.
Em abril deu-se um período de acalmia no contágio mas o surto voltou a ganhar força em maio e junho.


"Trata-se de uma epidemia de Ébola extremamente complexa, porque se desenvolve ao mesmo tempo em meios urbanos e rurais", afirmou Keiji Fukuda, sub-diretor geral para a Segurança Sanitária na OMS.

Na semana passada um especialista da ONA Pierre Formenty, afirmou àAgência France Presse que a "segunda vaga" da epidemia, depois de um abrandamento em abril, se deveu sobretudo à atenuação das rígidas medidas de controlo sanitário nos três países afetados, como lavagem das mãos vigiada, higiene básica e isolamento dos pacientes.
Medo e falta de dinheiro
De acordo com uma declaração da OMS, três fatores estão a contribuir para o alastrar da doença.

Incluem o enterro das vitimas de acordo com práticas tribais tradicionais nas comunidades rurais, a elevada densidade populacional em torno das capitais da Guiné e da Libéria e atividades comerciais e sociais inter-fronteiriças entre grupos étnicos próximos.

A caça e consumo de animais infetados pode igualmente contribuir para o alastrar da doença. O vírus do Ébola provoca febre, vómitos, hemorragias e diarreia, levando à morte em 90% dos casos. É altamente contagioso e transmite-se por contacto com o sangue e outros fluidos e tecidos corporais infetados.

Lassa afeta os sistemas gástrico, nervoso, cardiovascular e respiratório, causando náuseas, vómitos, dificuldade em engolir, tosse, faringites e dores no peito, hipertensão e taquicardia entre outros sintomas. Transmite-se através da exposição a excrementos animais, através do trato respiratório ou área gastrointestinal. É endemico na Serra Leoa e na Libéria.

A febre Crimeia-Congo causa febre súbita, dores abdominais, vómitos, diarreia, aparecimento de hematomas e hemorragias nas mucosas, tendo uma taxa de mortalidade entre os dois e os 50%.


Guiné-Conacri, Libéria e Serra Leoa estão entre os países mais pobres da África Ocidental, com fronteiras permeáveis e sistemas de saúde frágeis, afetados por conflitos e má gestão.

Os ministros da Saúde reunidos no Gana pretendem concertar estratégias para conter o surto numa resposta regional mas alertam para a premente falta de fundos e para as práticas tradicionais que complicam o controlo do contágio.

Abubakarr Fofanah, vice ministro da Saúde para a Serra Leoa disse que o país necessita de dinheiro para comprar medicamentos, equipamento protetor básico e salários.

À margem da reunião, a vice-ministra da Saúde da Libéria, Bernice Dahn, disse à Agência Reuters que o medo é o maior obstáculo. "Na Libéria o maior desafio é a negação, o medo e o pânico. O nosso povo têm muito medo da doença".

"As pessoas estão com medo mas não acreditam que a doença exista, porque as pessoas adoecem e os membros da família e da comunidade escondem-nos e enterram-nos, contra todas as normas que impusemos" explica Dahn.

Enterro de vítima do vírus Ébola na Serra Leoa em junho de 2014 (foto: Reuters)
Ataques à Cruz vermelha e MSF
As autoridades tentam evitar que os familiares das vitimas do Ébola enterrem os seus mortos da forma tradicional que inclui habitualmente a lavagem do corpo. Os mortos devem ser em vez disso enterrados por pessoal de saúde com fatos protetores.

Na Serra Leoa, além deste problemas, registam-se casos de fuga ao tratamento dificultando o esforço de acompanhar os casos e a evolução da doença.

Na Guiné-Conacri registraram-se casos de ameaças ao pessoal da Cruz Vermelha levando à suspensão das operações. "Habitantes locais rodearam um veículo identificado com a Cruz Vermelha", relatou um responsável da organização sob anonimato.

A Cruz vermelha internacional disse depois que só saiu do país o pessoal internacional. Em abril, um centro dos Médicos Sem fronteiras foi igualmente atacado por jovens após o pessoal ter sido acusado de ter trazido a doença para o país.
Medicamentos experimentais
Jeremy Farrar, professor de medicina tropical e diretor de uma ONG da área da Saúde, The Wellcome Trust, defende o uso de de medicamentos experimentais e ainda não testados em casos clínicos nem aprovados, para ver se resultam contra a atual epidemia de Ébola.

"Temos mais de 450 mortes até agora - e nem a um único indivíduo foi oferecido mais do que banhos de esponja e um 'iremos enterrá-lo bem'", afirmou Ferrar à Agência Reuters.

"Isto é inaceitável", acrescentou Farrar, dizendo que o ciclo habitual, de testes em animais durante um ano, depois em voluntários humanos antes de ensaios clínicos em pacientes e de aprovação pelas autoridades, não deveria aplicar-se em surtos de transmissão rápida de doenças como o Ébola.O desenvolvimento de medicamentos contra o Ébola e outros vírus hemorrágicos é lento em parte devido à falta de fundos para pesquisa e devido ao facto da maioria dos países onde ocorre não ter meios para pagar os tratamentos.

Em janeiro, uma pequena companhia farmacêutica norte-americana que se uniu ao Departamento da Defesa norte-americano para produzir um medicamento injetável contra o Ébola, iniciou a fase um de experiências com voluntários saudáveis.

Já a Inovio e a Vaxart estão a testar vacinas experimentais em animais, e a GlaxoSmithKline possui um produto anti-Ébola na primeiro ano de desenvolvimento após ter adquirido a firma suíça Okairos.

Fonte: RTP