13 julho 2014

Direção demissionária da Associação Humanitária não se recandidata

Pedro Ortiga, presidente demissionário da direção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Trofa, explica motivos da demissão. Na próxima semana decorre assembleia-geral para marcar eleições para órgãos sociais, mas Ortiga não pretende voltar a candidatar-se.

O Notícias da Trofa (NT) -Já há algum tempo que esta direção vinha sendo vítima de ataques anónimos. Esta demissão acabou por ser o culminar de um desgaste?
Pedro Ortiga (PO)- Os ataques anónimos são uma forma já bastante conhecida de se dizer o que apetece sem querer assumir a responsabilidade do que se diz. Vivemos um ciclo em que as pessoas sabem de tudo e não querem evoluir, pois a mudança cria-lhes desafios, para os quais sentem que podem não estar preparadas. Isto propicia o aparecimento da intriga. Um elemento da nossa direção relativamente a estes panfletos anónimos, em reunião de direção, deixou no ar uma frase que nos deixou a todos a pensar, e que vou cometer a inconfidência de a partilhar convosco: “Quando não se sabe fazer melhor, nada melhor do que criticar os que fazem, para desviar a atenção do fruto produzido e das nossas incompetências”.
Respondendo à sua pergunta, obviamente que nenhum dos 9 elementos da direção demissionária gostou de ter conhecimento do teor dos panfletos anónimos, mas continuamos serenamente focados naquilo que nos movia e naquilo para que fomos mandatados pelos associados da AHBVT enquanto direção: administrar a AHBVT, garantir a efetivação dos direitos dos sócios, elaborar orçamento e plano de atividades anual e apresentar anualmente aos associados, para aprovação, a atividade desenvolvida e relatório e contas de gerência. A melhor prova disso é que até ao dia em que apresentamos a demissão, nem uma palavra proferimos à comunicação social acerca desse tema.

NT - Na próxima semana está agendada uma assembleia geral da associação com vista à marcação de eleições. É intenção da direção demissionária apresentar candidatura?
PO - Não! Conforme referimos no nosso discurso de demissão, temos a firme certeza de que os associados estarão à altura de responder a este novo desafio que se coloca à AHBVT, e não temos dúvidas de que, conforme já dissemos “depois de nós virá quem melhor do que nós fará”!

NT- Sai revoltado com os Bombeiros ou de costas voltadas face a algumas posições tornadas públicas por alguns elementos do corpo de bombeiros?
PO - Obviamente que não. A causa dos Bombeiros Voluntários em Portugal é demasiado valiosa para ser tocada pela posição de um punhado de elementos do Corpo de Bombeiros da Trofa, ainda para mais, quando me é confidenciado apoio por muitos Bombeiros que estão com esta direção demissionária, mas que obviamente devem obediência e disciplina a quem os comanda.Tenho pessoas, amigos de longa data, que muito respeito dentro do Corpo de Bombeiros Voluntários da Trofa, verdadeiros companheiros de ação, seja no CB da Trofa a que pertenci, seja na missão de conduzir e engrandecer a AHBVT que os detêm e mantêm. Permita-me que esclareça que não é por termos meia dúzia de árvores doentes que devemos abater a floresta. Os associados da AHBVT saberão dar continuidade a esta grandiosa Associação, a maior do concelho, e como associado que sou e que continuarei a ser, manter-me-ei atento e colaborante naquilo que possa ajudar no engrandecimento da AHBVT e dos Trofenses. Porque sempre comunguei e servi como voluntário no Corpo de Bombeiros e na direção, o meu bem haja a todos os atuais voluntários e também a todos os que no futuro o venham a ser. Só quem é voluntário é que sabe que quando nos damos, valorizamos muito mais quando recebemos.

NT - O problema da falta de comandante nomeado por comissão de serviço do corpo de bombeiros arrasta-se desde que a direção entendeu não renovar a comissão de serviço a João Pedro Goulart. Qual o motivo que levou a direção a tomar esta decisão?
PO - O comandamento de um Corpo de Bombeiros é realizado através de nomeação por comissão de serviço de cinco anos, cabendo à direção da Associação a nomeação ou renovação/não renovação da comissão de serviço, situação que ocorreu em abril de 2013, altura em que se impunha a esta direção renovar tacitamente a sua comissão por mais 5 anos, como seria normal e de esperar, ou pelo contrário não renovar a mesma.
Após ponderada e objetiva análise e avaliação de desempenho do Comandante João Pedro Goulart, foram apuradas um conjunto de situações que levaram esta direção a decidir unanimemente em reunião de direção de 18 de abril desse ano pela não renovação, sendo que o Sr. Comandante poderia ainda recorrer dessa decisão superiormente, situação que o Comandante João Pedro Goulart não fez.
Sendo as razões descritas de forma clara e objetiva em ata dessa reunião e comunicadas ao próprio, sem qualquer posição pública da nossa parte que não seja a breve referência hoje facultada perante a sua questão, existiu um relatório externo à direção que pesou fortemente na decisão, relatório esse que nada tem de cariz pessoal. Numa inspeção realizada pelo Comandante Distrital de Operações e Socorro (CODIS) em agosto desse ano, foram detetadas várias irregularidades graves, das quais menciono apenas duas constantes desse relatório e que passo a citar: “Existe plano de instrução aprovado, no entanto a formação é ministrada de forma ad-hoc” e ainda “Registos individuais dos bombeiros estão muito incompletos (…) poderá a curto prazo afetar o funcionamento do CB (Corpo de Bombeiros), bem como a moral dos Bombeiros”.
Sendo a formação um dos pilares que considerávamos fundamental, e de forma acrescida para os estagiários que já a longo tempo estavam no CB; sendo o comandante formador e funcionário da AHBVT com todas as condições solicitadas a esta direção para o efeito, não era para nós exequível desviarmo-nos daquele que era o nosso principal objetivo: um Corpo de Bombeiros de excelência, excelentemente equipado e excelentemente formado. O nosso “focus” sempre foi o CB e o seu engrandecimento e essa foi a razão da nossa decisão.

NT- É público que o comandante em funções Filipe Coutinho se demitiu em março, alegando motivos profissionais. Depois desse momento, o comando passou pelas mãos de dois elementos do CB, e passadas algumas semanas voltou novamente às mãos do comandante demissionário Filipe Coutinho. Como se explica que pouco tempo depois assuma novamente o cargo de comandante?
PO -Permita-me esclarecer relativamente a esse ponto: um CB (Corpo de Bombeiros) nunca fica sem Comandante. O comandamento interino de um CB é assumido pelo elemento mais graduado, ou na impossibilidade deste, pelo elemento mais graduado imediatamente a seguir, e assim sucessivamente, até que um assuma esse mesmo comandamento, passando a partir desse momento a ser o comandante em regime de substituição. O que aconteceu foi isso mesmo. Quando não se renovou a comissão de serviço do Comandante João Pedro Goulart, o 2º Comandante Filipe Coutinho ficou interinamente a comandar o CB, situação de prevaleceu até de 12 de março deste ano, com acordo de ambas as partes, tendo sido nessa altura solicitado pelo Sr. Filipe Coutinho a cessação do exercício de funções por razões profissionais (conforme o pedido atesta), o que levou automaticamente ao Sr. Filipe Coutinho assumir a posição hierárquica que detinha antes da nomeação enquanto elemento de Comando, isto é Bombeiro de primeira. Nessa altura aplicando-se a letra da lei, o comandamento do CB passou para o Oficial Bombeiro de 2ª Dr. Vítor Pinto, nosso atual COM (Comandante Operacional Municipal) recentemente nomeado pelo Sr. Presidente de Câmara, e aproveito para felicitar o novo COM pela nomeação, e que face a necessidade de férias deste levou a que o comandamento passasse novamente para o elemento mais graduado, que neste caso foi o Bombeiro Chefe Fernando Costa, que permaneceu no cargo de comandante até comunicação oficial da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) que o Sr. Filipe Coutinho teria transitado para a posição de Oficial Bombeiro de 1º supranumerário, nesse momento o elemento mais graduado deste CB. Nessa altura o comandamento foi-lhe proposto, tendo este aceite. Quanto aos motivos que o levaram a aceitar o comando neste 2º momento , admito desconhecer por completo os motivos que o levaram a reassumir o comando em regime de substituição após se ter demitido por motivos profissionais.

NT - Qual a saúde financeira da associação?
PO - Conforme é público, e tal como foi dito na nossa comunicação de demissão, financeiramente a AHBVT goza de uma saúde invejável, quando comparada com a grande maioria das suas congéneres nacionais. Tal só foi possível com a colaboração de Todos, desde os voluntários que deram o seu tempo e a sua vida à causa, passando pela população em geral e pelos associados que detêm a AHBVT na assunção das suas obrigações enquanto associados, continuando em todos os funcionários que diariamente foram engrandecendo o nome da AHBVT, e terminando nos mecenas e beneméritos que sempre estiveram ao nosso lado. É graças aos esforços conjugados deste tão vasto leque de pessoas que conseguimos apresentar esta situação financeira.

NT - Apesar de existirem opiniões contrárias, também há quem afirme que esta direção terá sido das melhores que passaram pela associação e que conseguiram o equilíbrio da mesma. Que comentário tece sobre isso?
PO - Nunca trabalhamos para sermos os melhores. Trabalhamos sim, dando o nosso melhor. Temos consciência de que fizemos efetivamente muito com pouco e em pouco tempo, com pouco ruído e sem louros nem festanças. Enfim, pensamos que conseguimos transmitir ao exterior que é possível fazer gestão profissional e competente em regime de voluntariado puro.
Nunca procuramos louros nem visibilidade pública. Fizemos o que podíamos e sabíamos em prol desta tão grandiosa associação que é a AHBVT. O nosso” focus” sempre foi a AHBVT, tentando fazer jus ao provérbio português “Os homens passam, mas as obras ficam.”

NT - Foi notória uma renovação de frota e de equipamentos nos últimos anos. Está ou esteve previsto a chegada de novos equipamentos/viaturas?
PO - Relativamente a essa matéria gostaria de lembrar que a AHBVT tem como fim, e de acordo com o constante do ponto 1 do artigo 3º dos Estatutos da AHBVT, em que refere que “A Associação tem como escopo principal a proteção de pessoas e bens,(…), detendo e mantendo em atividade, para o efeito, um corpo de bombeiros voluntários ou misto”.
Neste âmbito, compete a AHBVT proporcionar dentro das suas possibilidades o equipamento para o Corpo de Bombeiros necessário à prossecução da sua missão.Recordar-se-ão com certeza que em abril passado e de forma absolutamente inesperada vimos uma viatura do nosso CB incendiar-se na A3, colocando inoperacional um veículo tanque, a que acresce ainda a inoperacionalidade anterior de um veículo ligeiro de combate a incêndios que detêm o chassi danificado, apresentando-se a reposição dessas duas viaturas como importantes para o CB. Perante as necessidades identificadas, esta direção tinha deliberado, penso que ainda em maio, a aquisição de duas novas viaturas de tipologia similar para colmatar essas necessidades, viaturas que estão encomendadas e em produção, com verbas já reservadas para o seu pagamento e que acreditamos poderão estar ao serviço do CB algures em agosto.


fonte: Noticias de Trofa