01 julho 2014

DECIF: Os guardadores de árvores que fintaram o desemprego

Santo Tirso tem uma das taxas de desemprego mais elevadas do país e é um dos concelhos mais afectados pelos incêndios de Verão. Nove desempregados foram recrutados para combater e prevenir os fogos.

Quinhentos incêndios, 1.300 hectares queimados em seis mil hectares de floresta. 2013 foi um ano cinzento para Santo Tirso. Para Domingos Machado também foi: nesse Verão, perdeu o direito ao subsídio de desemprego. Fazia parte dos 7.074 desempregados do concelho e nunca foi chamado pelo centro de emprego para um trabalho.

O cenário mudou em Maio. A câmara e o centro de emprego criaram o que o presidente da autarquia, Joaquim Couto, diz, à Renascença, ser o "maior" dispositivo de combate e prevenção de incêndios do país.

A equipas formadas por bombeiros, agentes da PSP, militares da GNR, trabalhadores do poder local e elementos ao serviço da Associação das Empresas do Sector Papeleiro e de Celulose, juntam-se nove desempregados de longa duração.

Domingos estava na lista. Deixou de vigiar os classificados para estar atento às florestas. Tem 41 anos.Outros desempregados tiveram a mesma sorte. Já Carlos Ferreira, 30 anos, trocou os livros pelas árvores. Nélson Roriz, de 32 anos, passou de administrador de empresas a gestor de espaços florestais. E Rui Filipe, com menos um ano de idade, substituiu as peças de automóveis pelas máquinas de silvicultura.

Estão há um mês a trabalhar no Monte Córdova, o ponto mais alto da região. Ganham pouco mais de 500 euros por mês.

O investimento de 125 mil euros já deu frutos e permite fazer um balanço positivo da iniciativa.

"Tem sido excelente", afirma Domingos, que integra a equipa de vigilância. "Já interviemos por três vezes e conseguimos resolver sempre em conjunto com os sapadores, sem ser preciso chamar outras corporações.

"Reconquistando rotinas"

Eram administrativos, auxiliares de acção médica, comerciais. Trocaram a secretária pelo balcão do centro de emprego há muito tempo.No Monte Córdova, encontraram o trabalho e a força que precisavam. São os olhos dos bombeiros. Sentem-se "úteis".

Carlos trabalhou sempre na área da saúde e estava a fazer uma licenciatura em enfermagem. Quando ficou sem trabalho, desistiu do curso e abandonou a única área que conhecia. "O trabalho não tem nada a ver, mas as rotinas vão-se reconquistando aos poucos porque também já tinha perdido as rotinas normais", conta.

Rui Filipe também ganhou um novo dia-a-dia: "Estava habituado a ver muita gente, trabalhava num balcão, onde passava e comunicava com muita gente". Mas, quando encontrou este trabalho, não pensou duas vezes: aceitou "de imediato".

A razão é simples e comum a todos os membros da equipa: foi "a única alternativa" que encontraram. "Não podemos recusar nada porque está muito difícil para arranjar trabalho. Temos que nos agarrar a tudo e mais alguma coisa. Antigamente eram os patrões que vinham atrás de nós, agora somos nós que temos de implorar, praticamente", afirma Domingos.

"Carimbos" não pagam dívidas

Durante muito tempo imploraram e tiveram o trabalho mais difícil de todos.

Rui Filipe confessa que esta oportunidade chegou na altura certa: "Já estava a entrar numa fase de desânimo porque procurava e não conseguia encontrar nada".

Estava desempregado há um ano e meio e, apesar de contar com o apoio da família e amigos, precisou de fazer mais contas a cada vez menos dinheiro. "As contas são sempre as mesmas e o dinheiro é sempre menos, daí nem pensar duas vezes em aceitar esta proposta".

Para Domingos, a pior rotina de todas é a de um desempregado. "Passava o dia a procurar os tais ditos carimbos, bater à porta das empresas todos os dias e a ouvir: ‘Não espere’", conta.

Mas "carimbos" não pagam dívidas e foi por isso que Guilherme Carneiro, de 43 anos, também entrou para o dispositivo.

"Quando temos as contas para pagar, créditos de casa e tudo, temos de pensar duas vezes. Eu neste momento já não me importava de ir para fábricas, eu ia para qualquer coisa. O que eu queria era sentir-me bem, ver que era útil para alguma coisa", afirma o ex-comercial de Santo Tirso.

"Agora estás na silvicultura?"
Desde que entrou para a equipa, Guilherme já se sente mais "útil", mas ainda não está "realizado".

Apaixonado pelo ramo automóvel, gostava de continuar a trabalhar como vendedor nessa área. "Eu tirei o 12º ano, fiz formações, estive toda a vida ligado ao ramo automóvel. Agora, os meus amigos ligam-me, surpreendidos: 'Tu trabalhaste sempre como comercial, tantos anos, em Portugal e na França, e agora estás na silvicultura?'" Ouvir isto desanima um bocadinho.

"Apesar de reconhecer que esta proposta foi boa para voltar a ter um salário e ingressar no mercado de trabalho, Carlos também não quer ficar por aqui: "Acho que o vejo como um meio para atingir um fim, uma vez que tenho outros objectivos".

Se Guilherme e Carlos ainda mantêm a esperança em conseguir algo melhor, Nélson Roriz não esconde a vontade de continuar.

"Muita gente pode pensar que trabalhar na floresta não é nada ambicioso, mas é ambicioso, é gratificante. Chega-se ao fim do dia e vê-se trabalho feito. Na minha área de administrativo não se vê trabalho, aqui vê-se".

"Um respirar mais aliviado"

O dispositivo custou aos cofres do município cerca de 125 mil euros, mas o presidente da Câmara de Santo Tirso entende que este é um investimento "perfeitamente justificado e que vai ter retorno" devido à grande área florestal do concelho.

O contrato tem apenas duração de um ano, mas Joaquim Couto diz que vai ser estudada a "hipótese de continuar" para o "projecto avançar".

O trabalho tem os meses contados, mas Domingos quer "viver um dia de cada vez" e aproveitar o facto de esta oportunidade "dar uma almofada de apoio" às contas de casa.

Para Santo Tirso, o dispositivo de combate a incêndios veio dar um novo pulmão. Para a equipa de antigos desempregados, significou um "respirar mais aliviado".


fonte: Renascença