16 junho 2014

"PLANEAMENTO, ESTRATÉGIA, COMBATE": Entrevista de Jaime Marta Soares a "Portugal Positivo"

O presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Jaime Marta Soares, dá a sua perspetiva acerca da prevenção, do planeamento, da estratégia, da formação dos bombeiros e do papel da Liga junto das Associações e dos Corpos de Bombeiros. Revela opiniões fortes e concretas sobre o papel dos bombeiros na sociedade e dos problemas que os mesmos enfrentam, não só em época de incêndios florestais, mas também, ao longo de todo o ano e nas mais variadas áreas de atuação no socorro.


A Liga é a Confederação Nacional das Associações e Corpos de Bombeiros de todo o país, instituída desde 1930, teve sempre um papel fundamental na procura do bem-estar comum, quer a nível financeiro, material e social das várias corporações de bombeiros, quer voluntários, quer profissionais e também junto das associações em prol de melhorias estruturais, que levem a uma melhor e competente  prestação de serviço às comunidades onde estão inseridas.

O ano de 2013 foi um ano dramático no combate aos incêndios florestais em Portugal, não só pela área ardida, como também pela morte de pessoas, entre elas 8 bombeiros.
Com a chegada do calor e a falta de prevenção estrutural da floresta portuguesa há uma conjugação de factores que permite a propagação de incêndios florestais assumindo foros de grande destaque e de grande preocupação em Portugal. A floresta portuguesa é extensa e tem sido alvo de danos significativos ao longo dos anos, seja por causas naturais ou por mão criminosa. Os bombeiros e a população têm tido grande influência no debelar deste flagelo. Além do impacto ambiental, os incêndios florestais põem em risco as pessoas, os seus bens materiais, o ambiente e a economia nacional.
Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, defende com convicção o papel dos bombeiros na sociedade e das mais variadas adversidades com que se deparam no dia a dia. Traduziu o trabalho dos bombeiros assente na solidariedade e no humanismo, que Jaime Marta Soares destaca como práticas e valores bem enraizados nos soldados da paz. Qualquer cidadão português sabe de cor o número de telefone dos seus bombeiros, sabendo também que estas mulheres e estes homens que se fardam de soldados da paz estão sempre prontos a socorrer, por todo o país, desde o Portugal mais urbano ao Portugal mais profundo. Há sempre um bombeiro a quem as pessoas podem recorrer, refere.
Enquanto presidente da Liga, o próprio define o cargo como aliciante mas ao mesmo tempo com muitas dificuldades de percurso. Jaime Marta Soares constata que há ainda muito a fazer e que resolver problemas não é tarefa fácil, acreditando que com perseverança e convicção tudo se resolverá, apostando no diálogo como arma para combater as resiliências que vão surgindo. Apesar disso, o presidente afirma que neste momento muito do que estava pendente nos vários departamentos dos poderes públicos instituídos está resolvido , ou prestes a sê-lo, afirmando  que o balanço dos dois últimos anos é tido como muito positivo.
O presidente elege o voluntariado nos bombeiros como a prática mais nobre que existe ao serviço dos cidadãos e que este tipo de serviço não deve ser desvalorizado, outrossim  incentivado e apoiado por todos. O voluntariado em Portugal nos bombeiros não é sinónimo de amadorismo, mas sim competência e profissionalismo. Os bombeiros portugueses para mais saberem criaram a sua Escola Nacional de Bombeiros, que forma e especializa os seus formadores e técnicos, com alta qualificação e competências ao nível dos melhores da Europa e do Mundo, reforça o presidente, que reclama mais apoios e incentivos ao voluntariado que motive um maior número de jovens para as suas fileiras.
Um dos maiores problemas apontado pelos bombeiros é a sua sustentabilidade financeira que lhe permita responder sempre com eficácia, às necessidades que lhes surgem todos os dias na gestão das suas associações.

A escassez de equipamentos também é um problema permanente e constante e que tarda a ser resolvido, apesar da nossa insistência e propostas concretas. No que se refere a outros equipamentos, nomeadamente rádios SIRESP (Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal), este é um sistema que permite colocar, em caso de emergência, todos os bombeiros a comunicar na mesma plataforma, explica. Esta tecnologia é suportada numa rede TETRA trunking digital, ou seja, um sistema de rádio móvel profissional bidirecional, que permite uma conversação em grupo, seja para coordenação, como para planeamento, com capacidade para manter em contacto mais de 50 mil utilizadores em simultâneo. O sistema pode ser utilizado também em rede privada. De um total de sete mil, já foram entregues cerca de três mil.
Os equipamentos de protecção são uma ferramenta relevante no combate aos incêndios florestais devido ao seu desgaste e à escassez dos mesmos. Na época dos fogos o equipamento denominado de EPI´S (equipamentos de proteção individual) é constituído por materiais com propriedades especiais para proteção pessoal no combate aos fogos. Para cada bombeiro serão no mínimo necessários três equipamentos diz Jaime Marta Soares. Infelizmente hoje não é essa a realidade. Estamos a envidar todos os esforços para que este cenário seja rapidamente ultrapassado. Além de equipamentos individuais, também as viaturas de combate,  precisam de ser recuperadas ou na maior parte dos casos substituídas por novas, não se esgotando obviamente nessas, todo o outro material necessário para uma prestação normal do socorro, o que implica recursos financeiros que os bombeiros não têm.
A prevenção de incêndios florestais volta a ser um assunto pertinente, por essa razão o presidente aponta falhas na organização e vai mais longe dizendo que a questão problemática não é o combate aos fogos, mas sim a prevenção estrutural da floresta portuguesa que não existe. As ferramentas mais úteis na prevenção dos incêndios florestais além da limpeza das matas, planeamento e ordenamento são também necessários o combate à negligência e ao crime. Há que criar sistemas de sensibilização e educação cívica para a defesa da floresta apostando na afirmação de uma competente e exigente cidadania activa, como ainda uma maior sensibilização e respeito pelo trabalho do bombeiro em que o risco é parte integrante da sua actividade diária.
A legislação é também um factor a não ser esquecido, já que é altamente relevante como acção preventiva. Esta última terá que incidir sobre a falta de civismo já que em Portugal o número de incêndios florestais com origem humana e criminosa ocupa a percentagem maior das ignições verificadas anualmente.
Para 2014, Jaime Marta Soares deseja e espera que não se repita um ano catástrófico como foi o de 2013.