15 maio 2014

No Caramulo, "o que tinha que arder já ardeu"

Quando o sol se ergue no Caramulo é a terra negra que salta à vista. Em cerca de 10 mil hectares de serra, mais de seis mil arderam em Tondela. Aqui, quase ninguém recebeu um cêntimo de ajuda.

“Arderam-me animais, milho, batatas e um barracão onde arrumava o pasto”. Maria perdeu quase tudo o que tinha na fúria das chamas que varreram boa parte da imensa serra do Caramulo, no Verão de 2013.

Tal como Maria, a esmagadora maioria dos habitantes do lugar de Braçal, na freguesia de São João do Monte, vive da terra. E para a terra. A aldeia que pela estrada se vislumbra ao longe é um serpenteado de pequenas casas, currais e campos de cultivo encravados nos penhascos onde, mortos de pé, jazem os pinheiros que resistiram aos maiores incêndios da história recente da região.

Oito meses depois, quando começa a fase Bravo, a segunda mais crítica de combate a fogos florestais, ainda há quem ainda procure fazer contas aos prejuízos.

Helena também perdeu “pinheiros, milho, os canos da água” que abasteciam os terrenos de cultivo da família. “Uma miséria.” E quando lhe perguntam se tem noção do que perdeu em centenas ou milhares de euros, tem apenas a certeza de que “foi o bastante para deitar todo um ano de trabalho para o lixo”.

Entre promessas e uma mão cheia de nada
Aqui quase ninguém recebeu um cêntimo de ajuda. Mas todos ouviram falar da ajuda de um milhão de dólares prometida pelo governo de Timor-Leste. Souberam pela comunicação social que “ficou tudo emperrado pelas Finanças” E agora, “ninguém sabe, nem quando, nem quanto vai receber”, diz António Pereira, presidente da Junta de São João do Monte.

Será esse o preço da interioridade? Não tendo como provar o que alega, Gilberto – também ele agricultor residente no Braçal – constata apenas que “quando houve aqueles problemas nas praias durante o Inverno, em pouco tempo foi tudo recuperado e houve logo investimento. Aqui passou quase um ano? E o que se viu? Nada!”

Prevenção sim, mas pouco
Lentamente, a paisagem carbonizada é substituída por um ou outro pequeno reduto verde. São as primeiras ervas que nascem sobre a área ardida. Só o tempo, muito tempo, permitirá que a floresta regresse àquilo que era antes da tragédia cuja memória, ainda recente, assalta esta pequena povoação.

Talvez por isso se fale mais de prevenção agora do que no passado. Talvez por isso, haja mais gente a limpar o mato à volta das casas e dos campos de cultivo. Mas no Braçal já não há quase nada a perder. Gilberto diz que “o que tinha que arder já ardeu”.

E os que hoje têm os cuidados que não tinham no passado fazem-no não porque se aproxime uma nova época de incêndios. “É que se as pessoas não forem afectadas, isto passa-lhes tudo um ao lado”, lamenta o autarca de São João do Monte.

Mas aqui todos sofreram com as perdas. “Se alguma coisa as pessoas aprenderam, foi à força dos prejuízos que acumularam”, conclui.

José Matos, adjunto de comando dos Bombeiros de Campo de Besteiros, confirma: “as pessoas não têm cultura de prevenção”. Tenta-se fazer alguma pedagogia junto das pessoas, “dizem que estamos a perder o nosso tempo”.

Quando as coisas acontecem, “a culpa é sempre dos bombeiros que têm de estar em todo o lado para acudir. É impossível!”

“É fácil ficar encurralado aqui”
Subindo ao alto do Monte de São Marcos, é mais notória a aridez da montanha. Não muito longe dali aconteceu parte da tragédia humana em que oito bombeiros perderam a vida.

Quando recorda a perda dos camaradas que morreram em missão, José Matos encolhe os ombros e o olhar perde-se na negra imensidão do monte. “Nunca devia ter acontecido, mas aconteceu”. São os imprevistos da Natureza numa montanha de ventos irregulares que sopram de todos os quadrantes. “É muito fácil ficar encurralado aqui”, observa José.

No Caramulo, ainda há muito verde à vista do que olhos alcançam. Os bombeiros, esses, estão a postos para voltar a defender o que ainda resta, apesar da dificuldade em repor o material perdido no Verão passado, “que é caríssimo e que só com muito esforço da corporação é possível ir recuperando”.

Acresce a essa outra dificuldade logística. Por contraditório que pareça, a extensa serra do Caramulo – onde é captada uma das mais conhecidas marcas de água engarrafada – tem escassos pontos de abastecimento para os bombeiros e para os meios aéreos. “Para levar água para o topo da montanha, tínhamos que vir abastecer lá abaixo ao quartel dos bombeiros de Campo de Besteiros”.

Perde-se tempo precioso. E com ele hectares de floresta. No último Verão foi assim. No arranque da fase Bravo está quase tudo na mesma.


fonte: RR