22 abril 2014

Rama da Silva: "As Mulheres São uma Revolução"

Com muitas vicissitudes ao longo do percurso, alguns recuos mas também avanços, reconheça-se, certo é que a igualdade género é hoje uma realidade nos bombeiros, antecipando-se ao que se passou, entretanto, nas forças armadas, nas forças de segurança e outras instituições.
Sem feminismos nem paternalismo, julgo poder assim caracterizar, cumprido o período de adaptação e consolidação, o ingresso das mulheres nos bombeiros em Portugal.

Esta realidade concreta, mensurável, susceptível de análise e avaliação há muito que merecia ser um verdadeiro caso de estudo que, pese embora as muitas e diversificadas resistências iniciais, já se afirmou e venceu.
As mulheres constituem hoje, e bem, uma revolução no seio dos bombeiros. Uma revolução pacífica que não traduz a ocupação de funções por favor, nem o cumprimento de eventuais quotas mas exclusivamente, sublinhe-se, por mérito e direito próprio.

Quando, noutros sectores da sociedade portuguesa, ainda hoje, as mulheres lutam por afirmar-se, por alcançar patamares tradicionalmente masculinos, nos bombeiros assistimos, como disse, a uma revolução pacífica continuada que deve honrar e responsabilizar todas e todos os que participem e tenham responsabilidade nela.
Hoje, temos perto de duas dezenas de mulheres comandantes de corpos de bombeiros e cerca de meia centena nos quadros de comando, como segundos ou adjuntas de comando. Isto, sem contar com os vários milhares de mulheres oficiais bombeiros, chefes, subchefes ou bombeiras de 1.ª, 2.ª ou 3.ª.


Há corpos de bombeiros em que metade do quadro activo é garantido por mulheres. E, pelas contas, outros lhes irão suceder. As escolas de recrutas e estagiários integram também muitos elementos femininos. Em muitos corpos de bombeiros, também, é comum ver mulheres serem chefes de piquete e até constituírem periodicamente piquetes inteiros.

Hoje, a maioria das obras de remodelação dos quartéis de bombeiros assentam também na necessidade de criar camaratas e balneários femininos que antes, nem a lei ou regras, nem as próprias necessidades previam.

Todos sabemos que a inclusão das mulheres nos bombeiros não foi um processo de todo pacífico. Ainda hoje, aliás, ainda há situações em fase de adaptação. Outros casos, a larga maioria, creio, testemunha um processo de integração quase pleno.

De início, de forma algo discriminatória, as mulheres foram remetidas para funções apenas auxiliares ou associadas ao socorro pré-hospitalar. Para estabelecer essa diferença de missões, segundo alguns, contribuíam a lógica da robustez física ou, entre outras razões, o próprio impacto psicológico de algumas das intervenções.

Por essas, ou outras razões, muitas experiências iniciais de abertura dos corpos de bombeiros às mulheres nem sempre deram resultados positivos.
Estávamos perante uma actividade tradicionalmente masculina, associada, em especial, ao exercício do esforço e da força mas cuja evolução, quer de estratégica, quer de meios, viria a evoluir para outros domínios.
Hoje, os corpos de bombeiros, passado o tempo próprio para vencer preconceitos e reservas, não reflectem mais do que o que se passa na sociedade, com as mulheres a ocuparem cada vez mais funções de liderança e a aplicarem-se em novas missões.

Nos bombeiros, inclusive, as mulheres não se debatem com os chamados “tectos de vidro” que ainda perduram noutros domínios da sociedade, ou seja, os obstáculos indeléveis, disfarçados, mas presentes, que dificultam a sua progressão e afirmação natural.

Assim, sem feminismo nem paternalismo, as mulheres têm sabido afirmar-se, de igual para igual, nas nossas associações e corpos de bombeiros. Mesmo que ainda não estejam superadas as dificuldades que tradicionalmente as inibem de desempenhar muitas actividades, seja pela acumulação delas, por exemplo, com tarefas domésticas, maternais e conjugais.

Estamos, por isso, perante um processo ainda em desenvolvimento, longe de estar consolidado. Mas os indicadores, por capacidade das instituições e vontade das próprias mulheres, e por que não dizê-lo, também dos homens, dão-nos excelentes perspectivas.

Os bombeiros, melhor que muitos outros grupos sociais, espelham bem a sociedade, a sua composição, a sua correlação de forças e as suas sinergias, onde a igualdade de género desempenha um papel determinante.

Definitivamente, a perspectiva redutora de estabelecer quotas para as mulheres não tem sentido nos bombeiros. Em contraponto, claramente, subsiste a lógica da paridade, da complementaridade, na riqueza da própria heterogeneidade e da descriminação positiva.
Nem tudo está feito mas, não tenho dúvida, as bombeiras saberão continuar a dar cartas e a desempenhar o seu papel.


Rui Rama da Silva
Vice-Presidente da Liga de Bombeiros Portugueses | Director do Jornal Bombeiros de Portugal (BP)
Nota na edição de Março do Jornal BP