20 abril 2014

Artigo de Opinião: "Não queremos medalhas, queremos EPI's iguais..."

Era uma vez,

Uns senhores vestidos de fatos de macaco, uns de azul, outros de laranja, apagam Incêndios, socorriam pessoas e protegiam os seus bens.
Não ganhavam nada em troca e mesmo assim arriscavam as suas vidas todos os 7 dias da semana, 365 dias por ano, de dia e de noite. 

Pouco equipamento possuíam, mas a vontade de ajudar era imensa, sem olhar muitas vezes para a sua própria segurança, cumpriam o seu trabalho, "de jeep's, camiões" e até mesmo de helicóptero combatiam Incêndios. Sabem o que recebiam? Nada.
Tinham eles uma estrutura representativa, que os defendia, aos poucos mas existia. Chamava-se na altura SNB.

Entretanto alguém, que mesmo com muito boa vontade em melhorar, teve a "infeliz" ideia em juntar um ENORME força (mas com pouca união) e uma outra mais pequena na altura e pouco dinamizada, desconhecida até da população em geral por nada fazer e por fazer nada. Assim se dividiu para "reinar" e surgiu o SNBPC.

Até que um dia, porque aqueles senhores daquela estrutura pequena, continuavam sem fazer nada e nada fazer, vieram uns grandes Incêndios, malditos "seres" enormes e quentes, feios e sedentos de destruição, surgiram mais uma vez e queimaram hectares e hectares de pinhal, mata, eucaliptais, etc, etc...

Mas eis, que no meio das enormes labaredas surgem incansavelmente aqueles que sempre cá estiveram (de borla!!) com frieza e determinação enfrentaram o perigo de frente, com uma épica coragem derrubando esses "seres" um após outro, olhos nos olhos. Numa batalha dura, muitas vezes inglória, perdendo até camaradas em combate, mas sempre com um sorriso para com aqueles, que deles dependiam.

Determinado dia, outro alguém, na mesma com muita boa vontade, mas mal aconselhado resolveu extinguir aquela entidade que defendia aqueles heróis que sacrificavam a sua vida pessoal, os seus tempos livres e alguns infelizmente a própria vida.

Acabou assim o SNBPC e começou a ANPC.

Essa infeliz ideia, outra vez, emanada de alguém alheio à realidade, trouxe outra ainda pior, num "reino" onde já se falava em crise e falta de verbas, formaram então aqueles que sempre cá andaram equipas ditas especiais mas para outras forças, com material do bom e do melhor, nada lhes faltava, tudo à grande e à francesa, assim foram investidos com pompa e circunstância “cavaleiros do reino” os GIPS e a FEB. Estes homens e mulheres comuns entre os mortais, chamados apenas a cumprir um serviço, mas agora de forma remunerada, paga pelo povo. (Que fique bem claro que nada tenho contra estas duas forças, muito pelo contrário).
Por outro lado, os outros que sempre cá andaram, agora preteridos em favor de outros supostamente melhores, mas formados por si, com menos equipamentos porque lhes cortaram as verbas, foram postos de lado.

Nessa altura sem estrutura própria e com "líderes" interesseiros, receosos de perder os títulos do "rei" e voltarem a ser um qualquer trabalhador de novo, calaram-se e fizeram "vénias".

Os anos passaram, os novos cavaleiros como era esperado nada de novo trouxeram ao "reino" além de mais despesa pública, a nova estrutura de igual modo trouxe pouco e sem grande qualidade.

Eis que um ano, os "seres" temíveis chamados incêndios voltaram a assolar o reino, de uma forma mais intensa que o habitual, novamente por culpa daqueles que nada fazem e mandam e desmandam e fica tudo ainda pior. 

Foram chamadas as forças de cavaleiros especiais, que não conseguindo resolver sozinhas, pois haviam sido criadas apenas para despejar os dinheiros do povo, tiveram de mais uma vez depender daqueles que sempre cá andaram, para degolar esses terríveis inimigos! Nesse ano foram 8 que perderam a vida e muitos outros ficaram com feridas físicas e psicológicas para todo o sempre, nesse ano foram eles próprios colocados em causa, seria sua a culpa da má gestão dos recursos, falta de formação, falta de preparação.

Basicamente foram sim vítimas de falta de reconhecimento, de apoio, mas essencialmente de respeito.

Após se sacrificarem por tudo e todos com uma história com mais de 600 anos, com altos e baixos, obviamente, eles não mereciam tudo isto que lhes fizeram.
Esta podia ser uma qualquer lenda ou fábula contada às crianças, mas não, estes "mal amados" têm nome e é repleto de significado, é BOMBEIROS, BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS de PORTUGAL.

Hoje como Bombeiro e vendo isto que vai acontecendo no "Mundo" dos Bombeiros, sinto-me envergonhado, sinto tristeza, sinto revolta, porque estes senhores que basicamente cumpriram aquilo para o qual são pagos para fazer no seu dia a dia, nada mais fizeram que eu e inúmeros outros, fizemos tão bem ou melhor, mas de forma gratuita.

Não queremos medalhas, queremos EPI's iguais, queremos oportunidades iguais, queremos respeito, porque no final de contas, somos nós que vamos aparecer "e salvar a miúda" [e nem sequer me falem do astronauta!!! hum brincadeira :)]

Já chega! Isto não pode continuar assim!

Tiago Picão
Bombeiro de 1ª
BV Condeixa