22 março 2014

Marca de um beliscão e olhar atento de médico salvam bebé vítima de maus-tratos

Uma especialista em medicina legal revelou hoje que o olhar mais atento de um médico salvou a vida a um bebé quando desconfiou da marca de um beliscão que, afinal, era um dos vários sinais dos maus-tratos que a criança sofria.

O exemplo apresentado por Teresa Magalhães, do Instituto Nacional de Medicina Legal (INML), durante o II Congresso Nacional de Ortopedia Infantil, que decorre até sexta-feira, em Lisboa, visou reforçar a importância dos profissionais de saúde na deteção de maus-tratos infantis.

"Esse médico, porque suspeitou das equimoses provocadas por um beliscão -- que o pai atribuiu a uma queda --, foi investigar e descobriu que o bebé tinha ainda várias fraturas nas costelas e marcas oftalmológicas, salvando-lhe a vida", afirmou a professora na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

Durante a sua intervenção, Teresa Magalhães apresentou várias imagens de maus tratos "fáceis de detetar", como os provocados por banhos em água a ferver, violações, queimaduras de cigarro, com secadores de cabelo, cortes, entre outros, mas alertou também para os "mais difíceis de detetar".

Sobre esses, Teresa Magalhães defendeu que o profissional de saúde, "na dúvida, deve sinalizar" aos organismos respetivos, como as comissões de proteção de menores.

O objetivo, disse, é salvar a vida destas crianças, que podem não ter uma outra oportunidade.

"Já fiz autópsias a crianças com sinais mais ou menos óbvios de violência e nós não queremos de todo fazer autópsias às crianças", afirmou.

Teresa Magalhães sublinhou que o empenho dos profissionais de saúde -- tal como os educadores na idade escolar -- é determinante para a a resolução destes casos e considerou que o envolvimento destes é hoje muito mais concreto, com resultados visíveis.

A especialista minimizou o papel dos números, pois acredita que "ainda não estão criados os instrumentos para conhecer uma realidade que, pela sua natureza, é encoberta".

"Os números são importantes, mas não chegam. Bastava haver um caso", disse.

A propósito da crise económica e dos seus efeitos nas famílias, com repercussões no bem-estar das crianças, Teresa Magalhães disse não sentir ainda um aumento significativo de casos de maus tratos, embora assuma que esta situação é "um dos muitos fatores de risco".

Os vários profissionais de saúde que estão em Lisboa a participar neste congresso nacional têm debatido a forma como os maus tratos chegam aos serviços de saúde, com destaque para a área ortopédica, defendendo todos eles a importância de uma resposta multidisciplinar para o problema.

Cassiano Neves, presidente da Federação Europeia das Sociedades de Ortopedia e Traumatologia disse que os profissionais de saúde, perante uma suspeita de maus tratos, devem atuar.

"Ter medo deste confronto [com os progenitores ou quem traz a criança ao serviço de saúde] não é razão para metermos o saco na cabeça", disse.

O especialista em ortopedia infantil deixou, contudo, um aviso: "Não há nada pior do que acusar uma família sem ter um estudo completo da criança. Na dúvida, é melhor internar a criança até ter um diagnóstico".

A este propósito, lembrou que existem doenças -- como a osteogenesis impefecta, que consiste numa muito acentuada fragilidade dos ossos -- que podem assemelhar-se a marcas de maus tratos.

Em Portugal existem 70 casos notificados desta doença e, segundo Cassiano Neves, já existiram situações que aparentavam maus tratos físicos, mas que os profissionais concluiram tratar-se da patologia.

Por isso, sintetizou, é necessário que as dúvidas sobre maus tratos sejam suportados por "uma boa história clínica", a qual também tem de passar por uma análise à relação dos pais com a criança.

Fonte: RTP