22 março 2014

Desabafo de Um Bombeiro... Sete Meses Depois...

Ao fim de 7 meses, vejo que o “Desabafo de Um Bombeiro”(clique para ler), ao qual eu relatei a minha experiência num teatro de operações, o mediático incêndio do Caramulo, nada foi benéfico para os bombeiros portugueses.

Nos primeiros dias sofri pressões da comunicação social para falar, relatar o que se passou; tive direito a um castigo interno no meu corpo de bombeiros, ao qual estou afeto, fiquei proibido de integrar GRIF’s; foi-me dito que seria processado criminalmente, pelo comandante das operações, referente ao dia em que estive no teatro de operações; 

Posto isto, vejo que as caras mudam, as calças podem precisar de bainhas e o dístico no dólmen precisa de ser alterado o nome, a boina preta permanece imaculada, e o ar condicionado devidamente carregado.

O que devemos reter é que os bombeiros vão iniciar mais uma época de incêndios florestais, com viaturas com décadas, fardamento com anos de algodão, queimado, que serviu durante o restante ano para as mais diversas situações, com o restante material de proteção individual degradado de anos anteriores, sem o seu respetivo Fire Shelter, que em 2013 serviu para salvar elementos dos GIPS, porque estavam equipados com ele. Vê-mos bombeiros que perderam camaradas em serviço sem apoio emocional, vê-mos famílias que ficaram destruídas porque o marido, o filho, a filha, o irmão, a irmã, morreu num incêndio florestal, sem qualquer tipo de apoio psicológico, emocional ou financeiro.

A culpa morreu solteira e levou consigo muitas vidas em 2013 e nos restantes anos anteriores, é de bom-tom, que se punam os responsáveis, que se apurem responsabilidades, para que 2014 não seja mais um ano negro para os bombeiros portugueses.

Quem realiza estudos, quem procura encontrar explicações, quem implementa normas, quem coordena, quem manda e tem poder de decisão, tem o dever e a obrigação de ouvir os bombeiros, tem o dever de deixar coordenar cada comandante, cada chefia dentro da sua zona operacional. Devem ser ouvidos os elementos mais experientes, com provas dadas no terreno, e não valorizar só as licenciaturas, os parentescos, as cores políticas e os interesses inerentes ao fogo florestal.

Que este ano não se vejam GRIF’s, GRUATAS e o diabo a sete, a fazer quilómetros de norte a sul, a cansar homens, a desgastar material, a fazerem viagens superiores às recomendadas quer em tempo quer em quilómetros. Que não se façam deslocar meios para estarem 24 horas parados, quando outros estão exaustos.

Que este ano se dignifiquem os bombeiros, quando eles merecem e não com festas de solidariedade e mensagens de pesar. O dignificar resume-se a material de proteção individual com qualidade e em número suficiente, distribuído uniformemente por todos os corpos de bombeiros, boa logística nos teatros de operações, boa coordenação dos meios disponíveis e a não culpabilização sempre da mesma classe.


Daniel Vincente