04 março 2014

A QUEDA DA PONTE DE ENTRE-OS-RIOS…

ALGUMAS MEMÓRIAS QUE ME FICARAM…

Em homenagem à memória dos que perderam a vida neste trágico acidente…

Completam-se hoje, às 21h19, 13 anos sobre a informação que me chegou, pela voz transtornada do então Inspetor-adjunto de Bombeiros da Região Norte, do Serviço Nacional de Bombeiros, António Salazar, que me informou da queda da Ponte de Entre-os-Rios e me disse:

“Caiu a ponte de Entre-os-Rios… vi um autocarro a cair ao rio e julgo que mais 2 ou 3 carros… o meu filho ia num carro à frente do meu… eu estou no início da ponte e ele não sei se está do outro lado ou não… (felizmente estava) ”.

Era em 2001 Inspetor Nacional de Bombeiros (INB) do Serviço Nacional de Bombeiros (SNB). Informei de imediato o meu Presidente Dr. Joaquim Marinho que também de imediato informou o Sr. Secretário de Estado da Administração Interna (SEAI) Dr. Carlos Zorrinho, tendo-se deslocado de imediato para o então CNCS (Centro Nacional de Coordenação de Socorros) na Inspeção Nacional de Bombeiros (INB).

O Sr. SEAI entrou em poucos minutos em contacto comigo assim com o Sr. Ministro da Administração Interna (MAI) Dr. Jorge Coelho para saberem mais pormenores sobre a situação e saberem da veracidade dos acontecimentos.

O Sr. SEAI agendou de imediato uma reunião para o dia seguinte no local do acidente para as 07:00 horas.

Contatei entretanto o Inspetor Regional de Bombeiros do Norte (IRB Norte) Prof Carlos Pereira que se deslocou de imediato para o local assim como todos os Corpos de Bombeiros da então, Zona Operacional.

Desloquei-me, depois de ter planeado algumas ações quer no CNCS quer através do IRB Norte, para o local do acidente onde cheguei por volta das 06:00 horas.

Havia um silêncio absoluto… a consternação era evidente… o ambiente era pesadíssimo… e tínhamos uma situação dificílima para resolver.

A reunião começou às 07:30, porque o Sr. Capitão do Porto (Autoridade Marítima com jurisdição e responsabilidade da zona do acidente) chegou mais tarde, com a presença do Sr. SEAI, do Sr. Presidente da Camara Municipal de Castelo de Paiva (que foi incansável), do Sr. Presidente do SNB, do Sr. Capitão do Porto e do Sr. Comandante dos Bombeiros de Castelo de Paiva.

Pode parecer estranho mas do então Serviço Nacional de Proteção Civil (SNPC) não esteve ninguém (o delegado distrital do SNPC de Aveiro estava no estrangeiro e a nível central ninguém ligou muita importância ao assunto… nunca… desde o inicio até ao fim do acidente).

A partir do meio da manhã a confusão foi geral. Todas as rádios, televisões, jornais, fotógrafos e outros, de Portugal e Espanha, estavam (por culpa nossa… neste caso por falta de avaliação e antecipação minha) no teatro de operações (TO) ocupando tudo o que era sítio, entrevistando tudo o que era gente… não nos deixando pensar no que realmente era importante. Esta situação ficou resolvida ao fim de 28 horas.

Era um verdadeiro caos… muitas informações sem nexo… muitas opiniões do que se devia fazer… muitos treinadores de bancada… muita gente com soluções para descobrir os cadáveres… muito de tudo e mais alguma coisa…

Foi psicologicamente muito duro pra todos… Foi a primeira grande tragédia mediaticamente acompanhada ao segundo com transmissões em direto das televisões no cabo, 24 sobre 24 horas… dando muitas vezes imagens que não deveriam nunca ter sido transmitidas…

Nessa tarde recebo uma comunicação do CNCS informando-me que o Instituto Hidrográfico tinha ligado, estava a acompanhar a situação pela televisão e que se nós quiséssemos tinham um sonar lateral para nos ajudar. Mandei dizer que sim e que tudo o que tivessem e que nos pudessem ajudar que agradecíamos. Mandei perguntar, como o Instituto estava ligado á Marinha, como se devia proceder para os acionar. Pouco depois tenho a resposta que bastava um fax que eles depois tratavam do resto. Assim foi por mim disposto ao Comandante de Serviço ao CNCS e assim foi feito.

No outro dia estavam presentes no local equipas do Instituto Hidrográfico com o Comandante Ezequiel como Oficial de Ligação com todo o seu equipamento que de imediato se puseram em ação… Foi um trabalho exemplar, do principio ao fim, chefiado por um Homem exemplar o Comandante Ezequiel que tive o prazer de conhecer na altura e o grande privilégio de trabalhar, de ver e de aprender.

Entretanto tinha pedido o veículo então chamado de Centro de Operações Avançado (COPAV) ao SNPC que me foi negado, tendo eu mandado avançar um veículo do CB do Pinhal Novo que estava a ser montado juntamente com a INB e o SNB como Veiculo de Gestão de Operações (veiculo posto de comando - único na altura no país), que chegou ao TO algumas horas depois para garantir a articulação das várias entidades.

Passadas 72 horas, já com o envolvimento da Marinha e apoio das Forças Armadas obviamente que o Gabinete do Primeiro Ministro, Eng. António Guterres, mandou deslocar para o local o seu Chefe da Casa Militar, para acompanhar politicamente as operações.

Por essa altura, julgo que no dia 5, a Marinha pediu-nos uma tenda grande para se fazerem as conferências de imprensa, já que estas eram realizadas todos os dias às 20 horas e eram outra autentica confusão… o local era apertado…na mesa estavam 14 pessoas politic0s e técnicos para responder às dezenas de jornalistas… também encafuados nesse pequeno espaço.

Não tínhamos, mas “à Bombeiro” conseguiu-se uma tenda insuflável grande, nova, que julgo que ainda hoje está por pagar, que foi colocada no local onde estava o equipamento das Forças Armadas e garantiu as reuniões conjuntas e as conferências e imprensa.

Numa dessas manhãs um acontecimento insólito. Alguém ameaçou o nosso responsável no local que ou abriam de imediato a porta do Veiculo de Gestão de Operações ou então que a abririam a ponta pé. De referir que a porta de manhã estava sempre fechada dado que as operações eram interrompidas ao fim do dia e só recomeçavam às 08:00 do dia seguinte. Havia ordem minha para não abrir a porta a ninguém antes dessa hora.

Tendo sido questionado sobre a questão a caminho do local, informei que se o Sr. quisesse abrir a porta a ponta pé que o fizesse ou então pedia como devia ser ou esperava que eu chegasse ao pé da viatura.

O caso nem seria grave nem o escreveria aqui, pois não tinha tido nenhuma importância se não tivesse sido protagonizado pelo Chefe da Casa Militar do Primeiro Ministro, Major General Arnaldo Cruz… Até porque a partir dessa altura os Bombeiros começaram a ser enxotados do local tendo sido dado ordem para o nosso veículo de gestão de operações saísse de onde sempre esteve estacionado, porque aparecia muito na televisão e a operação agora era uma operação das Foças Armadas.

Assim foi feito e depois de terem praticamente reduzido a zero a intervenção dos bombeiros e ao fim de nove dias consecutivos regressei a Lisboa.

Lembro-me do grande esforço dos Bombeiros, dos seus mergulhadores horas a fio em operação… lembro-me do excelente trabalho do Instituto Hidrográfico e das equipas de mergulhadores da Marinha… do excelente trabalho da Camara Municipal de Castelo e Paiva e dos muitos anónimos que apoiaram logisticamente esta enorme operação…

Lembro-me da incapacidade de lidarmos com a comunicação social e desta com o acontecimento…

Lembro-me do desespero das famílias… Lembro-me dos funerais e do ambiente que aí se viveu… Lembro-me do grande trabalho de apoio psicológico que foi feito com as famílias… a sua integração nas operações e a estrutura que foi montada pela Camara Municipal para que obtivessem todas as informações necessárias no local… do grande trabalho do Instituto da Água com as autoridades Espanholas para se conseguir parar entre barragens a corrente do rio Douro e permitir mergulhos mais eficazes… do grande trabalho do instituto de Medicina Legal também com as autoridades Espanholas na libertação dos corpos que foram aparecer na costa Norte da Galiza.

E lembro-me sobretudo do muito que aprendi, do muito que vivi, muitas vezes em ambiente compreensivelmente hostil… do muito que vi e que senti… da revolta… do sentido de impotência… da janela de oportunidade que foi aberta para se refletir sobre o sistema… que se acabou por fazer cerca de um mês depois de se encerrarem as operações, mas cujas conclusões se as houve, devem ter sido esquecidas…

O resto fica para um dia...

Autor: Paulo Gil Martins