18 fevereiro 2014

Verão de 2014 poderá ser o mais quente de sempre

DIARIO11Cientistas dizem que há 75% de possibilidades de o Verão deste ano bater recordes e de se assistir a um fenómeno El Niño

O Inverno rigoroso que se tem feito sentir, com fortes nevões e temperaturas abaixo do normal na América do Norte, cheias no Reino Unido, queda de precipitação e forte agitação marítima em Portugal, dificilmente tornará fácil aceitar a previsão de alguns cientistas que referem que o Verão de 2014 poderá ser o mais quente de sempre, desde que há registos.

Um estudo publicado no jornal da Academia Nacional de Ciências dos EUA cita uma investigação de académicos alemães que se debruça sobre as ligações entre as temperaturas na zona de origem do fenómeno El Niño e no resto do Oceano Pacífico, em vez de se centrar na temperatura da água.

Por essa razão, os cientistas concluem que se repetirá o fenómeno El Niño, no final deste ano, cuja versão mais extrema ocorreu entre 1997 e 1998, provocando a morte de 23 mil pessoas e prejuízos na ordem dos 35 mil milhões de dólares.

Este padrão é corroborado pelo secretário-Geral da OMM, Michel Jarraud, a partir da análise da temperatura em 2013. Segundo os dados da OMM, o ano de 2013 está entre os 10 mais quentes desde 1850. A temperatura global média situou-se 0.50 °C acima da média de 1961-1990 e praticamente igual à média da década de 2001 – 2010.

De resto, treze dos catorze anos mais quentes ocorreram no século XXI. Os anos mais quentes foram 2010 e 2005, com temperatura global média cerca de 0.55 °C acima da média, seguidos de 1998, ano com um excepcional episódio de El Niño.

Citado pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera, o Secretário-Geral da OMM, Michel Jarraud refere que “a temperatura global média no ano de 2013 é consistente com a tendência de aquecimento de longo prazo. A taxa de aquecimento não é uniforme, mas a tendência é inequívoca. Dadas as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera, as temperaturas globais continuarão a subir”

Em Portugal continental, a temperatura média do ar no ano 2013 foi cerca de 0.14 °C superior ao valor médio de 1971-2000. Valores superiores aos registados este ano ocorreram em cerca de 30% dos anos.

Já em 2014, o mês de Janeiro foi o terceiro Janeiro mais quente desde 1931 e choveu 50% acima do normal, segundo alguns especialistas ouvidos pelo i.


Último mês foi o terceiro Janeiro mais quente desde 1931 e choveu 50% acima do normal

Duas tempestades varreram Portugal. Nem todos os especialistas atribuem este par de temporais às alterações climáticas, embora avisem que estes eventos vão já sendo menos extremos e mais vulgares

Hércules e Stephanie. Os dois varreram Portugal com ventos fortes, agitação marítima intensa e chuva a potes. Os estragos e os prejuízos foram-se repetindo e só no domingo a Autoridade Nacional da Protecção Civil (ANPC) contou 2780 pedidos de ajuda vindos do litoral norte do Continente. Os especialistas ouvidos pelo i dividiram-se quanto ao papel das alterações climáticas na recente visita de duas tempestades em pouco mais de um mês. No entanto, uma conclusão é unânime: estes fenómenos meteorológicos extremos são e serão cada vez mais frequentes.

A constatação nem é nova e em Portugal até se sabe o que esperar. Durante o Inverno já existem "indicadores" que acautelam para a ocorrência de "precipitações muito intensas e localizadas no tempo e no espaço", diz João Andrade dos Santos. O investigador da Universidade de Trás-os-Montes (UTAD) desenhou o cenário e salientou que, nesta época invernal, "o que tem sido um pouco anómalo é o nível da intensidade do vento e da agitação marítima".

Em Janeiro, a precipitação em Portugal continental esteve "50% acima dos níveis normais" e a média da temperatura mínima registada "foi de 3 graus acima do normal", revelou Pedro Viterbo, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). O clima está a mudar. O especialista da UTAD diz porém que estas situações extremas "não podem ser atribuídas a alterações climáticas", pois isso não se pode concluir "apenas num ou dois Invernos". Este tipo de alterações, defende, "tem de ser sempre analisado num período longo: de duas ou três décadas, ou mais".

Será esse o tempo de espera para se explicar o que causou as tempestades Hércules e Stephanie? Talvez, indicou, embora os investigadores já estejam avisados para a possibilidade de ocorrência mais frequente deste tipo de eventos extremos.

Isto porque os "dados e relatórios" do próprio IPCC (Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas das Nações Unidas), explicou João Andrade Santos, mostram que "a probabilidade de ocorrência destes eventos extremos será maior no futuro devido ao aquecimento global, à acção humana e aos gases com efeito de estufa".

Filipe Duarte Santos, investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, tem outra opinião. Defende ser "muito provável" a relação destes fenómenos extremos com as alterações climáticas. A posição é partilhada pelo Met Office, serviço meteorológico do Reino Unido, que "num comunicado recente não encontrou uma explicação alternativa" para estas situações.

Duarte Santos alertou para um tempo de retorno médio - frequência de repetição destes eventos - que, "no passado, era há volta dos 100 anos", e agora pode ser "de semanas". Esta sucessão recente de tempestades, contudo, "não significa que isto venha a acontecer todos os Invernos", embora sublinhe que "estes eventos se vão repetir num espaço cada vez mais curto de tempo". Hoje são considerados extremos e no futuro passarão "a ser comuns e menos invulgares", concluiu João Andrade dos Santos.

A hesitação justificou a sua explicação científica. "Estes ciclones extratropicais estão associados às correntes de jacto [de ar]", argumentou, que circulam da América do Norte para a Europa e, "por norma, a latitudes mais elevadas do que têm estado este ano". Estas correntes trazem "ciclones" formados pelo "contraste entre massas de ar frio e quente". Tudo "situações normais", assegura o investigador, mas que continuarão a afectar Portugal "enquanto essa corrente não se deslocar para norte" e voltar a afectar as Ilhas Britânicas, "como faz normalmente".

O fenómeno começou "por altura do Natal" e tem sido "uma constante nas últimas seis/sete semanas", prosseguiu Pedro Viterbo. Quando uma depressão supera os 24 hectopascal (medida de pressão) em 24 horas, os especialistas chamam-lhe "bomba". E o responsável pelo Departamento de Meteorologia e Geofísica do IPMA revelou que "desde Dezembro" o país já registou "mais de sete". Na tempestade Hércules (ocorrida entre 4 e 6 de Janeiro), aliás, houve "duas bombas em dois dias consecutivos".

O IPMA emitiu para hoje o aviso amarelo em toda a costa de Portugal continental, prevendo ondas entre os 4 e os 5 metros até pelo menos às 20h59. Filipe Duarte Santos garante que hoje as pessoas "já ligam" às cautelas sugeridas pelas entidades, e João Andrade dos Santos considera que os portugueses "já vão tendo" algum cuidado. "Muito mais do que há dez ou 15 anos, quando ninguém falava nisso", resumiu. Andrade dos Santos, contudo, critica as 60 mil pessoas que estiveram no domingo no Estádio da Luz, em Lisboa, e a sua "admiração" com o adiamento do jogo entre Benfica e Sporting devido ao mau tempo.

 

fonte: iOnline