19 fevereiro 2014

Uma História de Bombeiros

TDA cena repetia-se três vezes por semana. A ambulância dos Bombeiros parava à porta do número 17 da avenida Nuno Alvares Pereira. Rita, bombeira tripulante, saía, atravessava a rua e dirigia-se à porta do prédio onde Adélia já esperava, saudando-a com um carinhoso “ Bom dia minha filha!”

Ao entrar na ambulância, Adélia dirigiu a Paulo, Bombeiro motorista, a sua saudação habitual “ Bom dia bonitão”, perante a risota geral dos demais doentes que já vinham na ambulância.

Há 3 anos que o quotidiano de Adélia era marcado pela Hemodiálise da qual era dependente. Viúva, sem filhos, o contacto com a Rita e com o Paulo criou uma relação muito forte. Durante a viagem até ao Centro de Hemodiálise perguntava-lhes pelos filhos, pelas “ caras metade”, pelas relações de trabalho nos Bombeiros e pelo Benfica, clube dos três.

Por sua vez os bombeiros abriam o coração a Adélia, falando dos seus problemas de família, das suas preocupações, fazendo desta doente como que uma espécie de confidente.

No Natal ofereciam prendas uns aos outros, Nos anos dos filhos de Paulo e Rita, Adélia trazia-lhes prendas.

Quando por qualquer motivo Paulo e Rita eram substituídos na tripulação por outros colegas, Adélia não descansava enquanto não sabia o porquê da sua falta. Numa ocasião, outros doentes que normalmente seguiam com ela na ambulância, perguntaram-lhe o porquê de tanta preocupação. De pronto respondeu: “Já viram alguma mãe não se preocupar com os filhos? Eles são como filhos!”

Uma manhã, Rita e Paulo chegaram à porta do prédio como habitualmente mas Adélia não estava lá. Acharam estranho. Subiram e bateram à porta. Ninguém respondeu, Ligaram para o telemóvel da Adélia e ouviram-no tocar dentro de casa, sem que ela respondesse. Ficaram preocupados. Desceram e, via rádio, comunicaram à central: “ Chefe, em 3 anos é a primeira vez que a dona Adélia não está à nossa espera. Ninguém atende em casa. Aconteceu alguma coisa. Não será melhor avisar a PSP e mandar alguém para abrir a porta? Entretanto Rita e Paulo seguiram com os demais doentes.

Na ambulância tudo se calou. O momento era de preocupação. Meia hora depois o telefone de Rita tocou. Era um colega que estava em casa de Adélia. Rita ouviu em silêncio. As lágrimas caíram-lhe pelo rosto e desligou. “ Então o que aconteceu?”, perguntou Paulo. Rita respondeu”: “ Entraram em casa e ela estava na cama… morta. Tinha um papel na mão e uma caneta ao lado. O papel tem uma mensagem para nós os dois”. Paulo ansioso questionou: “ Uma mensagem? Que mensagem?”

Rita com a voz embargada reproduziu a mensagem de Adélia. “Queridos filhos, Rita e Paulo, hoje não precisam de vir. Segui viagem!”


Duarte Caldeira 
     Repórter Caldeira