28 fevereiro 2014

Qual o futuro do BOMBEIROS, em Portugal?

Qual o futuro do BOMBEIROS, em Portugal?

Como vamos encontrar este sector daqui a 10, 15, 20 anos ou mais?

Depois de escutar um vasto conjunto de audições, a propósito dos Incêndios Florestais (não deixando de ser uma iniciativa meritória), facilmente constatamos que os problemas são recorrentes e têm décadas, o que os torna crónicos.

Talvez por más políticas, talvez por más estratégias, talvez por má gestão, talvez por maus investimentos e até, talvez, por maus Bombeiros.

O que vai acontecer agora?

Mais dinheiro para cima dos problemas!

A cultura existente dita que assim seja e que, para garantir uma resposta no imediato face ao cenários dos últimos anos se dêem umas reprimendas informais, preferencialmente via meios de comunicação social, que se juntem umas acções de maior visibilidade (mediáticas q.b.), que se adicionem umas quaisquer campanhas à escala nacional e que, que se alterem uma quantas portarias ou decretos, tentando atender a uns quantos 'pedidos' (dos mais diversos quadrantes) e assumindo-se um conjunto de medidas avulso.

'Mudanças feitas', todos satisfeitos. 

Não entrando em grandes pormenores legislativos que, cada vez mais me parecem menos exigentes, julgo que o caminho deveria assentar (ainda que na sua forma macro), pelo menos, em 4 fases, de forma sequencial e evolutiva:

  • Quantidade (seria desejável, uma aposta ajustada à realidade do território nacional - Ex: temos cerca de 3/4 dos meios e recursos concentrados em cerca de 1/4 do território o que, nos deixa os restantes 3/4 do território, apenas com 1/4 dos meios);

  • Qualidade (seria a melhor forma de provar e mostrar o real valor dos Bombeiros - Quando a qualidade de um serviço é indiscutível, restam poucos argumentos);

  • Eficácia (seria o melhor indicador da importância da acção dos Bombeiros - A eficácia mede a relação entre os resultados obtidos e os objectivos pretendidos);

  • Ética (seria, o colmatar de uma grande lacuna e que deveria nortear o sector dos Bombeiros).

Julgo que, com a falta de visão estratégica a médio e a longo prazo, estamos a hipotecar o futuro do Bombeiros em Portugal.

Sobretudo, no que diz respeito a uma estrutura una, coesa, competente, sólida e coerente, isto é, alinhada com os seus valores ao longo do tempo.

Existem, a meu ver, Bombeiros a menos e Corpos de Bombeiros a mais.

Urge uma redefinição do modelo actual que, ao longo do tempo, se tem vindo a deteriorar, a perder credibilidade, a dividir ao invés de unir e, muito em especial, a perder o lugar de destaque social que merece.

Os Bombeiros tendem a ser 'especialistas em generalidades' e 'generalistas em especialidades'.

Ainda assim, representam a base e o expoente de todo o sistema de Protecção Civil, que vigora em Portugal.

Representam a maior força e, em simultâneo, a maior vulnerabilidade do sector.

Se soubessem utilizar correctamente este 'poder', seríamos mais e melhores, teríamos mais qualidade nas acções e missões solicitadas, sendo mais eficazes e, com isso a dar um retorno ainda mais relevante à sociedade e, talvez, também pudéssemos começar a incrementar o sector com a tão necessária ética, em todos os processos e pessoas envolvidos.

Não haveria nada nem ninguém, que nos pudesse faltar ao respeito.

Isto só poderá acontecer se, existir uma estratégia nacional, concertada e uma visão clara e objectiva, acerca do futuro dos Bombeiros no nosso país.

Pensada por BOMBEIROS e para BOMBEIROS!

(E não me venham com a história dos 'Bombeiros sem farda' - com o total e devido respeito aos dirigentes que o merecem - pois, só quem enverga/ou esta farda com dedicação, orgulho, brio e dignidade é que sentiu as reais dificuldades dos Bombeiros. O uso da farda, é um direito, não um dever - é preciso merecê-lo!)

Como isso não se prevê a breve trecho, temo que sejamos dominados por 'mais do mesmo', com promessas vãs, acções pontuais, políticas medíocres e uma sociedade pouco exigente.

Ao fim de tanto anos de investimento desajustado e/ou desperdiçado, de tantas políticas erradas, de tantas lutas internas e de energias dispersadas, os Bombeiros irão continuar a existir, a exercer o seu papel e a cumprir as suas missões.

Quando o colectivo social decidir mudar, irá exigir.

Quando exigir, o país irá melhorar.

Consequentemente, o sector dos Bombeiros também.

Até lá, sejamos capazes de demonstrar nosso o real valor, da melhor forma possível e com o máximo de dignidade.

Talvez assim, ao contrário de outros, consigamos honrar a memória de todos(as) que já perdemos.


João Canas