19 fevereiro 2014

De "Bombeirito" a Bombeiro

Ao sábado o quartel era uma festa. A partir das 15 horas juntavam-se os infantes, orgulhosos nas suas fardas e com muita vontade de participar nas actividades habituais.

Para enquadrar os “bombeiritos” lá estava o Chefe Horácio e o Bombeiro de 1ª Esteves, destacados pelo comandante para cuidarem da “arraia miúda”, como carinhosamente designava os infantes do seu corpo de bombeiros.

Aqueles 15 miúdos (4 raparigas e 11 rapazes) eram maioritariamente oriundos de famílias de poucas posses, razão porque os pais viram naquela actividade, dinamizada pelos Bombeiros da terra, uma oportunidade de proporcionar aos filhos um conjunto de actividades lúdicas e formativas que, de outro modo, não poderiam usufruir.

O Joca era um desses miúdos. Tinha 9 anos muito sofridos. Ele e os seus 3 irmãos passavam muitas privações. Os pais trabalhavam da manhã cedo até ao anoitecer, ficando os miúdos uns com os outros ao cuidado de um irmão mais velho com 16 anos. Os pais tratavam-nos bem, dentro das limitações financeiras que possuíam. Iam á escola, embora por vezes faltassem.

Um dia escola onde o Joca andava organizou uma visita dos miúdos ao quartel dos Bombeiros. Ele ficou fascinado com os carros, com as fardas e com todo aquele ambiente. Em casa contou aos irmãos. Antes de se deitar contou aos pais. Nessa noite não dormiu.

A escola ficava perto do quartel. Uns dias depois da primeira visita, pôs os pés ao caminho e foi até lá.
Pediu a um bombeiro que o deixasse ficar por ali “um bocadinho”. Foi autorizado. Viu sair o carro de fogo, depois uma ambulância. Depois desse dia voltou outros dias, depois da escola e com a autorização dos pais, tornando-se familiar ao pessoal.

Ouviu falar na abertura de inscrições para uma escola de infantes. Pediu aos pais e inscreveu-se. E assim começou a ser infante e, logo depois, cadete.

Agora o Joca estava ali, em frente à mesa das entidades para conjuntamente com mais 9 colegas receber o machado, o capacete e as divisas de Bombeiro de 3ª, apadrinhado pelo Chefe Horácio, já no Quadro de Honra.

À voz do comandante, perfilaram-se em continência, no meio de uma enorme ovação dos presentes. Joca correu para a formatura e ocupou o seu lugar.

Já posicionado, veio-lhe à memória o primeiro dia em que entrou naquele quartel. “ Tens de ser Bombeiro”, disse-lhe então o Bombeiro que o acolheu.

Joca lembrou-se o que respondeu, prontamente: “ Eu quero, quero mesmo!”. Olhou os colegas, depois os pais e os irmãos que estavam sentados por perto. Sorriu.

A mãe, à distância, disse-lhe baixinho, com indisfarçável orgulho; “ Vais ser um grande Bombeiro!”. Decidido, Joca respondeu: “ Eu quero, quero mesmo!”


Duarte Caldeira
     Repórter Caldeira