22 fevereiro 2014

A Bombeira Elsa

Tinha 14 anos quando a Elsa entrou no corpo de bombeiros como cadete, inspirada pelo seu amigo Jorge. Ambos frequentavam a mesma escola e namoriscavam. Passados 6 anos casaram. Ela empregada numa grande superfície e ele numa oficina de automóveis, acharam que reuniam as condições necessárias para ter o primeiro filho. É assim que, um ano depois, nasce o Bernardo.
 
Durante os 3 anos de vida do Bernardo, a Elsa e o Jorge, mantiveram a sua actividade regular como bombeiros, apresentando-se ao serviço de escala sem faltas e noutras ocasiões em que foram solicitados.
 
Uma madrugada a Elsa estava de Piquete no quartel e recebeu uma chamada do Jorge. O Bernardo não estava bem. Elsa correu para casa. Já em casa confirmou os receios de Jorge. Ligaram o 112. A ambulância chegou e levaram Bernardo para o Hospital.
 
Elsa e Jorge esperaram 2 horas na Urgência, sem notícias. Depois um médico veio informá-los que o menino estava muito mal e que tinha de ficar internado em observação. Jorge ficou em pânico. Elsa controlou-se.
Já de manhã, Jorge regressou a casa para ir trabalhar e Elsa ficou no hospital à espera. Quando o marido saiu ela foi aos sanitários e explodiu num choro convulsivo. Mais calma regressou à sala de espera. Ligou para a chefe a anunciar que estava no hospital com o filho e que não ia trabalhar. Ligou ao comandante a justificar a sua saída abrupta do quartel, na noite anterior.
 
A meio da manhã chamaram-na. Começaram por lhe dizer que ela era uma mulher forte e que teria de resistir. Logo de seguida com a serenidade fria de quem tem muitas vezes de dar más noticias, disseram-lhe que o Bernardo não tinha resistido. Aquele coração, que nunca tinha dado quaisquer sinais de falência mas com uma insuficiência congénita, acabava de tirar a vida ao Bernardo.
 
Seguiram-se dias de grande amargura, tanto para Jorge como para Elsa. Jorge esteve com baixa durante muitos meses, mergulhado numa profunda depressão. Elsa, nos seus 24 anos, envelheceu precocemente. Porém, decidiu não deixar o emprego e todas as manhãs lá estava. Não deixou o serviço no corpo de bombeiros, de tal forma que nos dois dias após o funeral de Bernardo, apresentou-se no quartel para fazer o serviço de piquete para que estava escalada.
 
Esta bombeira e mãe coragem, hoje continua a ser bombeira, sendo mesmo responsável pelos infantes no seu corpo de bombeiros. Trabalha na mesma grande superfície e é mãe de uma menina de 7 anos. Jorge mudou de actividade após a recuperação pela morte do filho. Saiu dos Bombeiros. Sempre que questionada sobre onde foi buscar forças para resistir a tanta adversidade e seguir em frente, Elsa responde: “ Devo isso aos Bombeiros. Os meus colegas e ao meu comandante. Eles foram os meus anjos da guarda!”. 
 
 
 
Duarte Caldeira