13 janeiro 2014

Incêndios de Verão: Futuro impõe o regresso ao ativo

Há poucos dias, quase no final do mês de um novembro muito frio, Portugal continuava a arder, um fenómeno estranho, mas que ainda assim ajuda a não votar ao cómodo esquecimento a tragédia que bateu à porta de tantos quartéis deste país e enlutou a grande família dos bombeiros.

Em Penalva do Castelo, tal como em Miranda do Douro, este duro combate só terminará quando todos os feridos nos incêndios do verão de 2013 estejam totalmente recuperados e regressem ao ativo.

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Em Penalva do Castelo cuida-se dos feridos enquanto em Miranda do Douro, o corpo de bombeiros une-se na dor pela perda de Daniel Falcão e António Ferreira, mas também no apoio aos três camaradas feridos, a enfrentaram um lento e sempre penoso processo de recuperação.

A comoção ainda ensombra o dia-a-dia no quartel de Miranda do Douro. Comando e direção trazem no rosto as marcas de perdas irreparáveis, que nem mesmo as homenagens mitigam.

O incêndio no Cicouro, no dia 1 de agosto, ficará para sempre inscrito como um episódio negro na história da instituição.

Já se passaram mais de três meses mas para comando e direção este é um acontecimento demasiado recente.

Emocionado, o comandante  Luís Martins conta que nesse primeiro de agosto o quartel recebeu o alerta de incêndio  numa ceifeira e que “de imediato os bombeiros saíram”.

Uma das equipas constituída por cinco operacionais “depois de dominaram uma frente de fogo recebe indicação de comando para se juntar a outra dos Voluntários do Vimioso que se encontrava numa outra área. As chamas acabaram por travar os bombeiros a meio do percurso e, apesar da tentativa de fuga, o veículo em que seguiam foi tomado e a tragédia tornou-se inevitável.

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António Ferreira e Daniel Falcão acabaram por falecer no hospital, dias após o acidente. Raquel Teixeira, Nélio Seixas e Vitor Ribeiro, prosseguem os tratamentos, mas que, em memória dos camaradas que tombaram nesta batalha, anseiam pelo regresso ao ativo.

António Ferreira faleceu aos 42 anos, depois de mais de uma década ao serviço dos Voluntários de Miranda do Douro, onde desempenhava as funções de operador de central. O “Toninho” era, segundo o comandante, “o rei da boa-disposição”. António Ferreira, depois de uma dura batalha pela vida, partiu no dia 4 de agosto.

Daniel Falcão, tinha 25 anos, um sorriso estampado no rosto e uma força inesgotável. Integrava a Equipa de Intervenção Permanente (EIP), mas em regime de voluntariado, “era o faz-tudo do quartel”, recorda o presidente da direção, Ulisses Firmino. Dias antes do acidente este bravo soldado tinha assegurado a revisão geral e a pintura do veículo que o conduziu à derradeira missão. Daniel faleceu no dia 6 de setembro

“Ninguém os esquece e a nossa maior homenagem a estes soldados da paz é continuar a apagar incêndios, a salvar vidas, a ajudar as populações. Temos que ter força…”, revela o comandante.

Aos 30 anos, Nélio Seixas, fala com orgulho da sua ainda curta carreira de bombeiro. Ingressou nos Voluntários de Miranda do Douro, “há meia dúzia de anos” com o irmão, e três meses após acidente, garante não ter esmorecido a vontade de servir o próximo.

12_8.jpg“As marcas na face e nos membros superiores vão desparecer” diz-nos, denunciando outras que vão demorar muito mais tempo a sarar, apesar de todo o apoio da direção, do comando e do corpo ativo.

Raquel Teixeira prossegue os tratamentos tal como Vitor Ribeiro, ferido com gravidade no incêndio Cicouro, mas que ainda assim “não sai do quartel”, conforme nos conta do comandante dos Bombeiros de Miranda do Douro.

José Luís Carvalho foi a ferido mais grave do grupo de Penalva do Castelo que combatia um incêndio Povolide, no distrito de Viseu, no dia 22 de setembro. O bombeiro sofreu queimaduras de segundo e terceiro grau nos pés, nas mãos e na cara, quando tentava salvar das chamas uma das viaturas da associação, mas que acabou por ficar completamente queimada.

Ainda fugindo aos pormenores deste acidente, a equipa reunida no quartel conta que foi surpreendida por uma mudança de vento e não esconde a aflição do momento, mas em Penalva do Castelo, perante a tamanha tragédia nacional, tudo parece bem menos penoso.

12-_6.jpgA recuperação de José Luís Carvalho, depois de 25 dias de internamento dos hospitais da Universidade de Coimbra e de Viseu, continua a preocupar direção, comando e corpo ativo, ansiosos pelo regresso do operacional ao serviço, sinal que, afinal, o pesadelo não passou disso mesmo.

O bombeiro refere que voltar a entrar no quartel, dias após a alta médica “foi complicado”, contudo garante que “com a ajuda do comandante e dos outros bombeiros” já volta a sentir-se em casa, e, até que o regresso à atividade já se tornou uma prioridade. Por enquanto José Luís terá que continuar a cumprir as sessões de fisioterapia de recuperação às mãos e às pernas.

A equipa, para além de José Luís Carvalho, integrava José António Loureiro, João Manuel Matos, Paulo Alexandre Augusto e André Pinto, que sofreram pequenas escoriações, mas que ainda assim tiveram que receber apoio psicológico.

“Temos dado a maior atenção aos feridos, até porque nestas situações escasseiam os apoios”, denuncia o presidente da direção José Albuquerque, acrescentado que os acidentes deste ano serviram para tornar públicas as injustiças de que os bombeiros são alvo, do esquecimento a que são votados.

“O José Luís, felizmente, está a ser bem tratado, não  lhe falta nada, nós não deixamos que lhe falte nada”, afiança.

Não escondendo a revolta, o dirigente fala das parcas coberturas dos seguros que considera serem uma afronta para todos aqueles que servem nos quartéis do país.

No rescaldo deste acidente o comandante Manuel Pereira congratula-se com a “união desta família que tem permitido confortar este grupo”, encarando o futuro com natural otimismo.

12_3.jpgEntretanto, Nuno Pereira, o bombeiro de Carregal do Sal que há meses se encontra internado no Hospital de Santa Maria, começa a recuperar, a ganhar pequenas batalhas, ainda que por enquanto, segundo o comandante Miguel David, o estado do jovem bombeiros ainda inspire todos os cuidados e muitas preocupações.

 

Fotografias: Marques Valentim / Sérgio Santos
por Sofia Ribeiro / Jornal Bombeiros de Portugal