27 dezembro 2013

O que foi falado à 10 anos atrás não é o que está a ser dito este ano!?

Depois de ler na íntegra o famoso relatório do Professor Xavier Viegas referente aos incêndios de 2013, apercebi-me que já tinha passado os olhos por qualquer coisa parecida, ou mesmo muito parecida.

Como ainda me julgo com boa memória, puxei de um livro que tenho no meu gabinete, livro esse com o nome de “Livro Branco”, recordam-se…

Então, fui apenas recordar o que tinha em mente de algumas considerações e recomendações que saíram desse famoso livro… Ao reler o referido, acabei também por relembrar os nomes das individualidades que foram ouvidas nesse ano, algumas que ainda cá andam e com muita responsabilidade…

Assim, gostava de deixar alguns parágrafos que fazem parte desse documento.

“As condições meteorológicas consubstanciadas em altas temperaturas, humidades relativas muito baixas, bem como ventos instáveis predominantemente de leste, deram origem a uma simultaneidade e concentração de incêndios florestais, cuja força e velocidade de propagação resultaram em violência e proporções fora do comum.

Além disso, o excessivo desordenamento do território, com milhares de habitações localizadas no meio das matas, sem respeito por qualquer medida de prevenção contra incêndios, obriga a dispersar os meios de combate dos bombeiros, face à prioridade da sua defesa e reduz a possibilidade de combate directo aos fogos.

Se, como este ano (2003) aconteceu, as variáveis atmosféricas se conjugarem de forma tão negativa, as insuficiências e as dificuldades exponenciam-se, dando origem à calamidade.

Por outro lado, parte dos grupos de reforço foram constituídos sem terem em conta todas as normas que os regem, quer quanto à qualidade dos veículos que os integraram, quer quando à experiência e à formação do pessoal para este tipo específico de ocorrências.

Falhou a organização dos teatros de operações, nomeadamente na utilização eficaz do sistema de comando operacional, com repercussões graves a nível da logística, da recepção e enquadramento dos meios de reforço na rentabilização de pessoal e veículos. Faltaram quadros de comando para provimento das diferentes funções na organização dos teatros de operações.

Há falta de formação específica para o combate a incêndios florestais, incluindo a não utilização de equipamento de protecção individual, a utilização abusiva da extinção por água em detrimento do uso de ferramentas manuais e/ou máquinas pesadas e a deficiente consolidação dos rescaldos, que originaram demasiados reacendimentos.

Falta de formação dos manobradores das máquinas de rasto, insuficiente qualificação de alguns pilotos e coordenadores aéreos.

Constatou-se o empenho e a abnegação dos bombeiros portugueses e outras forças intervenientes. A protecção às povoações foi eficaz na maior parte dos casos, obtendo a preciosa colaboração das populações, cuja participação ao lado dos bombeiros foi notória em grande parte dos incêndios. Houve, ainda, uma grande participação das câmaras municipais e das populações na tentativa de minimizar as deficiências de logística, particularmente na alimentação. Assistiu-se a um maior recurso a máquinas de rasto.

Análise e qualificação das funções de comando das operações de socorro, com especial incidência na clara definição das responsabilidades operacionais.

Realização de uma auditoria técnica aos corpos de bombeiros, através de equipas integradas do SNBPC e da Liga dos Bombeiros Portugueses, de modo a clarificar as necessidades nos domínios dos equipamentos, formação e recursos humanos.”

Depois de lerem estes parágrafos retirados do referido Livro, pergunto eu, o que foi falado à 10 anos atrás não é o que está a ser dito este ano!?

Carlos Pereira
Comandante A.H.B.V. Pontinha