03 dezembro 2013

Jovens com "fome de fogo"

Quando em Londres começou a vê-la com más companhias, o pai de Cátia Dias teve medo que a filha entrasse no mundo dos gangues. Por isso, decidiu que era tempo de voltar a Portugal, onde na pacata vila de Carregal do Sal, no distrito de Viseu, ela estaria segura. Dos oito bombeiros que morreram este ano nos incêndios, cinco eram jovens. Cátia tinha 20 anos. Muitos anseiam pelo fogo. É que, se "um actor quer ter o papel principal num filme conhecido, um bombeiro quer estar na frente a combater um incêndio"

Um toque de sirene é o mais comum, é a costumeira chamada para uma urgência em saúde; com dois toques, ainda há esperança, se ficar por ali significa que estão a ser convocados para um acidente, mas, quando ouve os dois toques, o que Tomás Coimbra, de 18 anos, mais deseja é que eles se transformem rapidamente em três e que a sirene pare de tocar. É que quatro toques, no corpo de bombeiros de Alcabideche (cada quartel tem o seu código), significa que há um incêndio urbano, mas os três são uma espécie de jackpot de Verão - o incêndio florestal.

No extremo oposto do incêndio florestal estão "as pataletas". Ninguém sabe dizer de onde vem nem o que significa a palavra usada em alguns quartéis, mas percebe-se pelo tom que usam que o termo é depreciativo. Fazer "as pataletas" é falar do mais rotineiro trabalho dos bombeiros, o transporte não urgente de doentes (por exemplo, levando-os de casa para a hemodiálise), que é também a actividade que lhes ocupa a maioria do tempo durante todo o ano.
Não é seguramente por causa das "pataletas" que, em contraciclo contra o envelhecimento crescente da população portuguesa, os quartéis de bombeiros se têm conseguido rejuvenescer: quase metade (45%) dos bombeiros portugueses têm entre 18 e 35 anos. No total, cerca de 85% são voluntários. Qual é então a atracção para os jovens?
Desde logo, o risco. "Cada situação para que saímos tem uma adrenalina diferente", explica Francisco Dias, ponderado nos seus 23 anos e bombeiro da corporação de Alcabideche (distrito de Cascais). Ele, o mais velho do grupo de amigos bombeiros da mesma corporação, prefere ser chamado para fazer urgências em saúde mas, entre os dois amigos de 18 anos (a idade mínima para se ser bombeiro), está isolado. No topo das preferências parecem estar os incêndios.
Tomás Coimbra diz que quando chega ao Verão está sempre ansioso por ouvir os três toques e que não é só ele. Quando se percebe que é mesmo uma chamada para incêndio florestal "desata tudo a correr e muitos, se pudessem, até iam com os seus próprios carros para o local". Digamos que, se "um actor quer ter o papel principal num filme conhecido, um bombeiro quer estar na frente a combater um incêndio, quer ser o agulheta". Numa equipa de cinco elementos, o agulheta é aquele que está a empunhar a mangueira, de caras para o fogo, explica.
"Eu não sabia nada de urgências, entrei para os bombeiros para combater o inimigo número um: o fogo", afirma Diogo Borba, de 18 anos. E quando se referem ao fogo não estão a falar de incêndios urbanos em que, sim, até pode haver uma botija de gás que se desconheça, que possa causar uma explosão, mas, "em princípio, o fogo não vai sair dali". No incêndio florestal, não se tem a certeza de que o fogo vai ficar circunscrito, "o vento pode, do nada, mudar" e deixá-los cercados. E essa imprevisibilidade que representa o maior perigo - na definição de cartilha que aprendem na formação obrigatória, um incêndio florestal é definido como "uma combustão livre, não limitada no tempo e no espaço" - é um dos ingredientes da "adrenalina" especial do incêndio florestal.
"Para os mais velhos, os incêndios já não são nada de mais. É uma rotina", diz Diogo. Para os jovens como ele, não. No Verão, primeiro instala-se a "ânsia de ir para o primeiro fogo do ano", depois "a sede de fogo", continua Diogo. Um incêndio "é o desconhecido", diz Francisco Silva, bombeiro de 17 anos que ainda não teve idade para sair.

Por causa dos incêndios, o Verão é também "a única altura do ano em que [os bombeiros] são reconhecidos. Durante três meses por ano somos falados dia sim, dia sim, no resto do ano só quando há inundações ou cai um placard", critica Francisco Dias.

Partir para os incêndios

Os bombeiros do Estoril ficam próximos do Casino, não muito longe do mar, numa zona de casas de ar apalaçado. Na área de abrangência destes bombeiros, o que há para arder em termos de zona florestal é ínfimo, são dez hectares, incluindo um retalho de arvoredo junto ao campo de golfe.

Quem é veterano, como o comandante da corporação de Bombeiros do Estoril, Carlos Coelho, chama à razão, lembra que os incêndios são uma actividade sazonal que lhes ocupa meros 4% do tempo, mesmo no Verão não chegam a 10% das ocorrências. Surgem no final da lista, a seguir ao transporte não urgente de doentes, às emergências pré-hospitalares, aos acidentes e aos incêndios urbanos.
Precisamente porque são uma pequeníssima parte do seu trabalho, o comandante admite que existe "uma vontade grande de sair", "uma fome de fogo", como lhe chama o chefe Bruno Felício, especialmente junto dos mais jovens. Qual é o apelo? "Tirando a destruição, um incêndio florestal é dos espectáculos mais bonitos que a natureza nos oferece. Hipnotiza, fica-se estupefacto com as dimensões e a beleza de estar frente a frente, num cenário daqueles." "Também nos testamos a nós, é uma guerra que temos, que queremos vencer."
Bernardo Figueiredo, o bombeiro de 23 anos que morreu depois de ficar ferido na serra do Caramulo em Agosto, já não era estreante nestas andanças. Noutros anos, tinha estado em fogos na Guarda, Viana do Castelo e Vila Real, "tinha feito pelo menos três épocas", diz Bruno Felício. Estava de férias, era estudante de Engenharia de Telecomunicações e Informática no Instituto Superior Técnico de Lisboa, mas continuava a fazer o seu piquete semanal de 12 horas e os domingos que lhes cabiam como bombeiro voluntário. Já tinha feito a sua escala da semana, não estava de serviço mas nesse dia passou pelo quartel e ofereceu-se para ir render a equipa do Estoril que estava no incêndio do Caramulo. Ele também queria ir.
Os bombeiros de Alcabideche, uma corporação vizinha à do Estoril, têm já na sua área de acção parte do parque natural Sintra-Cascais, mas mesmo quando ali chega o fogo costumam ser pequenos focos, quando arde fica-se por um hectare - nos grandes incêndios no Norte, chegam a arder mil hectares, explica o seu comandante, José Palha. Quer dizer que neste tipo de corporações, em zonas urbanas e com pouca área florestal, costumam acorrer aos incêndios noutras zonas do país quando são pedidos reforços, como aconteceu na serra do Caramulo, para incorporar os chamados Grupos de Reforço a Combate de Incêndios (GRIF).

Sendo acontecimentos mais raros do que em zonas rurais, também é aqui que a ida para os incêndios se torna mais apelativa. Ana Rita Pereira, de 23 anos, que quando não estava nos bombeiros era auxiliar de acção médica num hospital a recibo verdes, "ia a todas", diz o comandante José Palha. Ela estava escalada para aquele dia, 22 de Agosto, e seguiu para o Caramulo, estava sempre disponível para ir render colegas.
Para estes jovens, os incêndios acabam por funcionar como "uma fuga à rotina, são alturas de convívio, em que se conhecem jovens de todo o país", diz José Palha. Depois, "está-se na frente do acontecimento, há camaradagem, pessoas de todo o lado. É uma forma de conhecerem o país, de sair da família, de conhecer outras realidades", completa o comandante do Estoril, Carlos Coelho.

O que os impele a quererem partir para o combate aos incêndios florestais são todos esses factores, a juntar-se a uma ideia de perigo de vida que, apesar de tudo, é remoto, concordam os comandantes. A última vez que morreu um bombeiro no Estoril ainda Bernardo Figueiredo não tinha nascido, foi em 1975, num incêndio industrial; em Alcabideche, em 86 anos de história, nunca tinha havido "uma morte em combate" antes de Ana Rita. Na página da rede social Facebook de Ana Rita Pereira, a bombeira presta homenagem aos colegas que foram morrendo nos fogos com solenidade, como se o mesmo não lhe pudesse um dia vir a acontecer a ela. "Mais um herói a defender o seu país", escreveu para assinalar a primeira vítima mortal dos incêndios deste ano, a 4 de Agosto. Tinha sido António Nuno Ferreira, de 45 anos, que não resistiu às queimaduras sofridas num incêndio em Miranda do Douro, que lhe cobriam mais de 90% do corpo.

O fogo tão perto

Para Cátia Dias, de 20 anos, o risco não era visto como distante e o seu pai, Carlos Dias, de 47 anos, sentiu que ela estava com medo de ir para o incêndio na serra do Caramulo. As chamas viam-se altas, do 4.º andar onde vivia, na vila de Carregal do Sal (distrito de Viseu). Ela já tinha avisado os pais que tinha de ir para lá no dia seguinte. Quando chegou à noite a casa, disse que precisava de ir espairecer um bocado, ir tomar um cafezinho com uns amigos. A filha voltou pela meia-noite, mas Carlos Dias não conseguiu arredar pé da varanda virada para a serra. "Eu fiquei aterrorizado, a olhar para as chamas." Chamou-a: "Ó Cátia, tu já viste?", "Ó pai, já vi, não me digas nada". Cátia não voltou.
Marta Sillen, de 20 anos, uma das bombeiras de Carregal do Sal que Cátia Dias foi render, convive com o fogo desde menina. Cresceu numa casa plantada na encosta do Mondego, rodeada de floresta, a poucos quilómetros da vila beirã, e desde sempre se habituou a ver o vermelho e amarelo a mudar-lhe a paisagem em volta. Primeiro desapareceram os carvalhos, depois os pinhais, depois vieram os eucaliptos. A partir dos quatro anos, quando a família se mudou para aquela casa, sempre teve noites irrequietas. "Desde pequenina que sonho com fogo, tinha pesadelos de morrer queimada."
Quando era adolescente, decidiu que era altura de enfrentar esse medo e entrou para os bombeiros voluntários de Carregal do Sal. "Os pesadelos de morrer queimada passaram." No ano passado, a sua casa esteve cercada, com a família lá dentro. Pensaram que se salvariam mas iriam perder tudo. Depois disso, a mãe e o irmão decidiram seguir-lhe o exemplo e entraram para os bombeiros, o pai não, mas funciona como uma espécie de posto de vigia avançado, é ele que avisa o quartel quando detecta os fogos.
De entre as muitas tarefas atribuídas aos bombeiros, ela não é das que mais anseiam ir para os incêndios, mas tem de ser. "Durante a noite é um inferno." Como se, com a escuridão, as chamas se tornassem mais intensas. Marta e a sua equipa de mais quatro tinham combatido as chamas durante 12 horas no Caramulo.
Na linha de combate ao fogo, Marta Sillen ocupava a mesma função de Bernardo Cardoso, o bombeiro de 18 anos de Carregal do Sal que morreu no mesmo incêndio no Caramulo. Ele era o "terceiro elemento", também conhecido como "o escravo", porque lhe cabe a tarefa "de puxar a mangueira e ligar lances para lhe acrescentar mais metros, para o agulheta ter mais manobra", explica Marta. Normalmente, é uma função reservada aos mais novatos. Cátia Dias era o segundo elemento na linha de mangueira, o chamado "ajudante de agulheta", que está nas costas deste a puxar a mangueira. Depois também há o chefe, que está sempre ao pé da equipa com o rádio em contacto com o veículo para fazer a gestão da água que resta, aumentar a pressão, "saber até onde se pode ir", continua Marta, e depois ainda há o motorista.
O segundo elemento (Cátia) e o terceiro elemento (Bernardo Cardoso) da equipa que foi substituir a sua morreram; o agulheta, um jovem de 23 anos, está com prognóstico reservado, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa; o motorista, de 21 anos, está estável - "já falei com ele no Face[book]", diz Marta -, mas continua hospitalizado. E o chefe da equipa, com mais de 50 anos, está a ser acompanhado por um psicólogo. Tal como Marta, mais os cerca de 15 bombeiros mais próximos das vítimas e 20 familiares e amigos.

O chefe foi o único que escapou fisicamente incólume, porque tinha ido avisar os que vinham atrás para recuarem, para recuarem todos. Quando se virou, só viu uma cortina de fumo. "Tudo aconteceu em segundos", lembra Marta.
Cátia era cinco meses mais velha do que Marta, podia ter sido ela a morrer e não a amiga, mas nem lhe passa pela cabeça desistir dos bombeiros, deixar de ir para incêndios. "O que tem de se fazer é seguir para a frente." E ela ali continua, no quartel, até ao seu último dia de férias, antes de voltar às aulas na Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro, onde está a tirar o curso de Terapia da Fala. Continua a sair para serviços, a ouvir os briefings diários que dão conta à corporação do estado de saúde dos dois colegas internados. Tal como faz o pai de Cátia.
Carlos Dias quer saber como estão os dois amigos da filha que sobreviveram. Quase todos os dias vai ao quartel saber novidades e vai ficando, como se ali estivesse perto do sítio onde a filha se começou a sentir feliz em Portugal.
Dos seus 20 anos, Cátia levava apenas seis de Portugal. "Era mais inglesa do que portuguesa." Os pais emigraram para Londres era ela bebé, ele para trabalhar como motorista num hotel, a mãe para fazer limpezas. Foram para ter vida melhor do que a levavam em Carregal do Sal. Mas voltaram, "para a proteger", diz o pai.
Os problemas começaram na adolescência. É que na zona da capital inglesa onde viviam, Neasden, na escola onde a filha andava, havia muitos gangues, e Cátia começou a envolver-se com eles. O pai quis afastá-la daquele mundo trazendo-a para Portugal, para que a filha tivesse uma vida "num sítio calmo", sem crime nem insegurança. "A minha preocupação foi pensar no que seria melhor para ela."
Mas a vinda de Inglaterra para Portugal não foi pacífica. "A entrada para a escola cá foi um caos", lembra Carlos Dias. A filha quase não falava português e o pai chegou a pagar a um tradutor para lhe traduzir as aulas: "Para os professores, tanto se lhes fazia que ela entendesse o que diziam como não." Nada feito, não se adaptou, desistiu da escola e decidiu arranjar um trabalho. Nos centros de emprego nem a servir à mesa num café conseguiu, lamenta o pai.

Até que um dia Cátia apareceu em casa a dizer que tinha entrado para os bombeiros de Carregal do Sal, pelas mãos de uma amiga. Ao pai pareceu-lhe bem, "não era um trabalho, mas era uma ocupação", diz. Já lá vão dois anos e meio. A filha começou a ter uma rotina, encontrou naquelas tarefas o espírito de ajuda que sempre fez parte da sua personalidade, conta.

Disciplina no quartel

Duarte Caldeira, ex-presidente da Liga Portuguesa dos Bombeiros Portugueses, diz que muitos jovens encontram nas regras e disciplina de um quartel projectos de vida que os estabilizam. Pessoalmente, participou em cinco casos de recuperação de jovens toxicodependentes integrados em quartéis de bombeiros, assim como situações de jovens problemáticos que saíram de centros de reeducação e conseguiram encontrar um caminho. Para muitos, o trabalho diário de bombeiros funciona como injecções de auto-estima, "aumenta-lhes o ego. Eleva as pessoas", concorda o comandante José Palha.

Ouvindo algumas histórias parece que os bombeiros são uma espécie de escola de virtudes para quem anda perdido, como para José Borges, de 19 anos, bombeiro de Alcabideche, que puxa para a cima a T-shirt para mostrar as três tatuagens que representam uma espécie de vida Antes dos Bombeiros e outra Depois dos Bombeiros. Numa lê-se CrazyPina, "alcunha dos velhos tempos", junto ao "Vida Loca"; abaixo da barriga lê-se "Thug life", que é como quem diz vida de bandido; e ao centro do peito estão duas letras, E.L. - as iniciais do nome da mãe, Elisabete Lourenço, que representam essa segunda fase da vida, o reencontro com o que interessa, a família e os amigos certos. Foi o padrasto, que é bombeiro, quem o pôs nos bombeiros de castigo. Agora, é a vida que quer seguir.
Para a incentivar na sua vida nos bombeiros, o pai de Cátia até entrou para a fanfarra da corporação de Carregal do Sal com ela. A música sempre fez parte da família. Em Londres, ele criou a banda Boys and Boys, que juntava portugueses com irlandeses, e pagava a uma velha professora de 70 anos aulas particulares de piano para a filha, "não é órgão, é piano". Ela não era como ele, amador, "a Cátia sabia ler e escrever música". Na fanfarra ele tocava clarim, ela caixa, embora, já se sabe, ele fizesse parte do "grupo dos cotas", ela do "dos jovens". "Papagaio louro de bico amarelo, cala-te com isso senão levas com o chinelo", trauteia lembrando as brincadeiras que se faziam nos ensaios.
"Foi nos bombeiros que ela começou a ser feliz em Portugal. Tinha um objectivo." O plano era seguir carreira. "Queria chegar a comandante de quartel", e dia 15 de Outubro estava planeado que voltaria a Londres para fazer os estudos na área de Protecção Civil e lá seguir carreira de forma reconhecida. A Carlos Dias entristece-o que em Portugal paguem 1,89 euros à hora a pessoas que arriscam a vida e fazem turnos de 12 horas a combater incêndios, que a população já tenha agredido uma bombeira de Carregal, amiga da filha, porque entenderam que tinham levado muito tempo a chegar a um incêndio, que ninguém se preocupe com o que eles comem, com o equipamento que vestem. Revolta-o pensar que a filha morreu para salvar eucaliptos, numa zona que se sabia que era de alto risco, num dia em que os aviões não voavam porque estava demasiado vento.
Mas ele sabe que há-de voltar a tocar clarim na fanfarra da corporação, sabe que um dia há-de ajudar como motorista voluntário, como tinha prometido à filha, ele que é motorista de pesados de profissão.
"Os bombeiros são como uma família" é frase que se ouve a toda a hora. Mas quando se diz que os quartéis são como uma família não é só porque todos se conhecem, é porque muitos têm de facto laços familiares. "O contágio familiar" explica a entrada de muitos jovens, diz José Palha, o comandante dos bombeiros de Alcabideche.
António Cardoso, o pai do jovem de 18 anos que morreu no incêndio da serra do Caramulo, não sabe que idade tinha o filho quando este lhe descobriu a farda e um bivaque antigos que guardava dos anos em que tinha sido bombeiro, tal como o tinham sido o seu irmão e o seu sogro. Volta meia volta, o filho ainda pequeno perguntava-lhe: "Ó pai, posso vestir aquilo? Ficava-lhe grande." Mas ele deixava, conta agora.
Foi assim que, mal encontrou a oportunidade, decidiu entrar para o mundo dos bombeiros muito antes de poder começar a sê-lo. Embora a idade mínima para se exercer seja os 18 anos, muitas crianças começam pela fanfarra. Foi o que fez, tocava bombo desde os seus 13 anos, mas assim que pôde entrou nas chamadas "escolinhas" de bombeiros. Foi cadete, o que significa que começou a receber formação no quartel aos fins-de-semanas a partir dos 16 anos.
A atracção pelo quartel de bombeiros era famosa na vila. Jessica Abreu, colega dele na secundária, lembra-se que lhe chamavam "Faísca McQueen": onde quer que estivesse, mal ouvia a sirene, desatava a correr em direcção ao quartel. Tinha realizado o seu sonho, foi estagiário mas agora já tinha chegado a bombeiro de terceira classe, o primeiro escalão da carreira de bombeiro voluntário, que se atinge depois de uma formação inicial de 350 horas teóricas e práticas e de um estágio de um ano no quartel - instrução comum a bombeiros voluntários e profissionais. Um dos módulos, de 75 horas, é vocacionado para o combate a incêndios florestais.
Mas, ainda antes de poder sair para incêndios, oferecia-se para fazer tudo o que havia a fazer na vida do quartel, nem que fosse atender telefonemas. O pai vai ao ponto de dizer que "gostava mais dos bombeiros do que da mãe e do pai". Na escola secundária, estava a tirar um curso profissional em óptica, que um bombeiro voluntário precisa de ganhar a vida.

Aprender desde pequeno

Ana Rita Pereira tinha sido criada sem a mãe desde os quatro anos. Pai e tio eram bombeiros e foi no quartel que cresceu, conta o tio, Vicente Pereira. A sua página pessoal de Facebook parece temática: Ana Rita e as amigas, bombeiras, Ana Rita e namorado, bombeiro, Ana Rita e a filha de quatro anos, que teve quando era adolescente, com um bombeiro.
José Palha admite que, nalguns casos, aquela segunda família, os bombeiros, possam ajudar a preencher carências afectivas da primeira. Ele tem guardadas as fotografias de Ana Rita nas suas várias fases de crescimento, em todos os natais em que organizavam uma festa para os mais pequenos.
A integração desde pequenos é incentivada, e alguns quartéis, caso de Carregal do Sal, tentam diversificar as formas de recrutamento para atrair os jovens que vão escasseando no interior, com as chamadas escolas de infantes e de cadetes, onde se pode começar a aprender noções de voluntariado e socorrismo a partir dos seis anos, com actividades adaptadas à idade, explica o comandante Miguel Ângelo. Assim se começam a criar vocações desde cedo, mas cada bombeiro é o maior recrutador, diz.
Mas há quem entre pelo seu próprio pé já adulto. Bernardo Albuquerque Vasconcelos Figueiredo - o comandante do Estoril, Carlos Coelho, brincava com ele dizendo-lhe que tinha "nome de rei" - não se enquadrava em nenhum destes percursos. Não andava perdido à procura de um caminho, não tinha nenhum familiar nos bombeiros. Era um estudante aplicado de Engenharia de Telecomunicações e Informática, uma carreira pela frente, tinha uma família estável, uma irmã gémea, uma vida confortável. Recebeu uma educação católica do pai bancário e da mãe professora, chegou a fazer outro tipo de voluntariado, como a distribuição da sopa aos pobres, mas foi para os bombeiros por causa de dois irmãos que eram seus amigos das aulas de Espanhol, um deles licenciado em Protecção Civil.
Bernardo entrou "betinho" e fez-se bombeiro, mas naquele meio havia algumas coisas que o tornavam diferente, lembra João Félix, colega de 39 anos, que foi um dos seus formadores. Era seguidor acérrimo de séries de humor britânico. Ele contava as piadas no quartel com tal entusiasmo, e ainda que quase ninguém fosse apreciador do british humour, acabavam a rir-se com ele, lembra a colega Ana Beatriz Augusto, de 32 anos.
João Félix, que chegou a andar no 1.º ano de Arquitectura até perceber que não tinha dinheiro para pagar as propinas da faculdade privada, conhecia algumas dessas séries. E lembra-se de ver como ele não era compreendido mas, ainda assim, apreciado, pelo sorriso, um sorriso permanente que lhe valeu a alcunha de "burrinho do Shrek", e pela generosidade com que, por vezes, dava explicações de Matemática ou desenrascava problemas de informática aos colegas.
Bernardo representa uma faceta menos conhecida dos bombeiros, que ainda são associados a pessoas com fraca formação, de estratos sociais mais baixos, admite Carlos Coelho, comandante dos bombeiros do Estoril, notando que cerca de um quinto da sua corporação são licenciados, a mesma proporção em Carregal do Sal, junta o seu comandante.
Quando José Palha entrou na corporação de Alcabideche, com 14 anos, em 1975, os bombeiros eram vistos como "coitadinhos e pobrezinhos". Na altura, a vida social de uma aldeia que hoje é subúrbio orbitava em torno do quartel, que era de onde vinha o socorro, mas também onde se realizavam os bailes, as matinés de cinema, os casamentos. Quando entrou para a corporação, ainda estava fresco na sua lembrança os 25 homens que morreram a lutar contra as chamas na serra de Sintra, impressionou-o a história desse incêndio que saiu em todos os jornais e que lia em voz alta às pessoas da povoação, porque a maioria das pessoas não sabia ler.
Em Carregal do Sal, depois da morte de Cátia Dias e Bernardo Cardoso, ofereceram-se como voluntários seis jovens na casa dos 20 anos, conta o comandante Miguel Ângelo da corporação da vila beirã. Eram amigos e conhecidos dos jovens empurrados por "um sentimento de perda" que se tornou comunitário. No bar onde se reúnem muitos jovens de Carregal, o Mota"s, entre baforadas de cigarros e tiros de dardos, elogia-se "o estômago" dos que conseguem ir para bombeiros. Mas no mesmo bar, noutra mesa, João Marques, técnico de telecomunicações desempregado, de 23 anos, e Pedro Fernandes, de 19 anos, não alinham nos elogios. O que lamentam é que "se mandem miúdos para a frente dos fogos. No terreno é a experiência que conta, não é a formação".
Perguntando aos três comandantes se, na posição dos jovens que morreram, a sua maior experiência teria feito diferença, todos se escusam a responder. Não estavam lá, aguardam os resultados das averiguações da Autoridade Nacional de Protecção Civil. Mas lembram que o serviço militar acontece com a mesma idade e que com essas idades se mandam pessoas para a guerra.

Não é nos livros que se aprende a apagar fogos

Tomás Coimbra, de 18 anos, concorda que "não é nos livros que se aprende a apagar fogos", mas que o factor da imprevisibilidade que representa, por exemplo, o vento, pode significar que tanto é apanhado uma pessoa com experiência, como outra sem traquejo. E lembra que nos fogos deste ano também morreu uma pessoa de 50 anos. Refere-se ao bombeiro Fernando Reis, da corporação de Valença, que tinha 51 anos. Neste Verão morreram também Pedro Rodrigues, de 40 anos, da corporação da Covilhã. A última vítima foi Daniel Falcão, um jovem de 25 anos, da corporação de Miranda do Douro, que era dos mais jovens o único profissional, ganhava cerca de 600 euros por mês. Cerca de 85% dos bombeiros portugueses são voluntários e não são remunerados a não ser na época de incêndios, em que recebem 1,89 euros à hora.
O que pergunta Tomás é que, "se o fogo vira, quem é que vai chegar primeiro ao sítio de fuga, a pessoa de 20 ou a de 50 anos? Há muitas condicionantes, a pessoa pode ter experiência e fisicamente não ter capacidade".
Duarte Caldeira, ex-presidente da Liga Portuguesa dos Bombeiros Portugueses, diz que associar mortes a falta de experiência é um mito, não é possível traçar causa-efeito com rigor científico. Se é verdade que cinco das oito mortes deste ano foram de jovens, não é possível generalizar. Duarte Caldeira está a terminar um estudo sobre as causas das mortes dos bombeiros desde que há estatísticas, 1980, até hoje. Entre os 109 que morreram no combate aos fogos nestes 33 anos, "o número de bombeiros jovens é completamente residual. O escalão mais minoritário é dos 18 aos 35 anos".
José Palha, comandante do corpo de Bombeiros de Alcabideche, diz que nenhum jovem vai sozinho para o terreno, vão sempre com elementos mais experientes, e vai buscar analogias ao mundo da aviação para dizer que são como os co-pilotos que um dia vão ter nas suas mãos os comandos do avião mas que começam por ir sentados ao lado, no cockpit.

Na sua opinião, a idade não determina a experiência e não hesita em considerar Ana Rita Pereira uma bombeira experiente, apesar dos seus 23 anos. Tinha ascendido a bombeira de segunda classe (o segundo escalão na carreira de bombeiro voluntário) e, para isso, "tem que se ter três anos no posto com classificação de muito bom ou cinco anos com a classificação de bom". "O que conta são as horas voo" e isso Ana Rita tinha, diz. "Percorreu fogos de norte a sul, ela ia a todas. Quem vai ao primeiro toma-lhe o gosto."

A floresta a quem a trabalha

Em Vilarinho, na Lousã, uma comunidade trabalha há anos para defender a floresta. Pôs o Estado em tribunal e ganhou o direito à terra
Luís Trota conhece aquela encosta de olhos fechados. "Daqui para cima, o problema são as acácias", avisa-nos ao volante da carrinha que sobe a serra. É sábado de manhã e o presidente do conselho directivo da Comunidade de Compartes dos Baldios de Vilarinho há-de parar várias vezes ao longo do caminho para mostrar de que é feita aquela floresta que os habitantes da terra gerem sem interferência do Estado.

Em quase mil hectares, há velhos moinhos movidos a água, ruínas cobertas de silvas da aldeia de Franco de Cima que poderão ser recuperadas se a caça turística for aprovada, imenso e intenso arvoredo que provoca uma frescura de arrepiar o corpo, um parque de merendas com bancos e mesas de madeira e uma estrutura de apoio que funciona como uma cozinha improvisada, junto a um tanque de água de combate a incêndios, e sete aerogeradores no topo da encosta, a 920 metros de altitude. Ali está também um memorial que traz memórias amargas e que lembra que todos os esforços não são demais para proteger uma floresta de perigos, de incêndios. Um memorial em honra de Franquelim Gonçalves que morreu ali perto, num combate a um incêndio em 2005 que não deu tréguas à serra da Lousã. Luís Trota faz silêncio enquanto olha para a lápide. "O seu heroísmo será sempre recordado", diz baixinho.
Em Vilarinho, a três quilómetros da Lousã, são os compartes - na teoria, os 2208 habitantes da freguesia recenseados com mais de 18 anos, na prática, pouco mais de 30 que se reúnem em assembleia para, em conjunto, tomar decisões importantes - que mandam na encosta. Homens e mulheres que têm uma grande responsabilidade em cima dos ombros: gerir uma floresta que não dorme com o objectivo de minimizar os danos provocados pelos incêndios, pelas espécies invasoras - sobretudo as acácias - e pela doença do nemátodo do pinheiro. E esta é uma tarefa de todos os dias.

Aquela floresta dá trabalho, mas também dá dinheiro. A lenha é distribuída pelas escolas, o arvoredo é colocado à venda como mandam as regras, em leilão, os aerogeradores dão uma renda anual de 40 mil euros. O dinheiro arrecadado é investido no material que os compartes precisam para cuidar da floresta, para comprar maquinaria, para alimentar a sede que está a ser ampliada, para as despesas da equipa de sapadores florestais - que limpa o que há a limpar, faz passeios, previne que as enxurradas destruam o que encontram pela frente -, mas também para distribuir pelas instituições da freguesia. Pelas instituições de solidariedade social, pelos ranchos folclóricos, pelo grupo de jovens que organiza um almoço para os mais velhos. Só para o futuro lar de idosos de Vilarinho, que está em construção, contribuíram com cerca de 150 mil euros.

O que é ser comparte

Luís Trota desce a encosta depois da visita guiada. Este sábado é um dia especial para os compartes e não só. Lá em baixo, na sede do clube recreativo, há um almoço multicultural a ser preparado por cientistas, por investigadores e alunos de doutoramento de vários países. Na cozinha, estão muitas mãos e cheira a especiarias. Haverá vatapá de camarão e bolinhos de seringueiro do Brasil, mole de frango com molho verde do México, frango fumado da Ucrânia, e outras iguarias. Uma equipa do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra prepara a refeição para simbolicamente assinalar o fim de uma investigação sobre os baldios.
O projecto SCRAM - Crises, Gestão de Riscos e Novos Arranjos Sócio-Ecológicos para as Florestas, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, esteve no terreno durante quase três anos, lado a lado com os habitantes de Vilarinho, com a missão de compreender as causas sociais e ecológicas da degradação das florestas num território considerado como um dos melhores exemplos nesse combate.
Dos 1112 baldios existentes em Portugal Continental, 80% são geridos em regime de associação entre compartes e Estado e apenas 20% são geridos exclusivamente pela comunidade de compartes.

O projecto formal do SCRAM termina no final deste mês, mas o protocolo de colaboração, assinado no início deste ano, vai manter-se para que se continuem a trocar ideias. Nesta investigação, os conhecimentos científicos e as experiências dos compartes têm o mesmo peso nos pratos da balança.
As actividades organizadas pelo CES tiveram sempre o propósito de lembrar o que é ser comparte. Houve caminhadas pelos baldios com o pretexto de conhecer a biodiversidade e com o objectivo de explicar o que são projectos comunitários, distribuição de informação sobre as assembleias, um seminário com o economista Castro Caldas para, terra a terra, explicar como os baldios podem contribuir para o desenvolvimento económico local. Em Julho, juntaram-se crianças numa escola de Verão para que entendam o que são os baldios que, no futuro, vão elas próprias gerir. E agora está a nascer um portal para divulgar informação a mais habitantes e a ser construído um kit pedagógico. A criação de áreas protegidas para valorizar a biodiversidade é uma possibilidade que está em cima de mesa e o nascimento de empresas comunitárias também tem feito parte das conversas. É de partilha que se fala em Vilarinho.

O seu a seu dono

A bióloga Rita Serra, investigadora do CES, coordenou o projecto SCRAM. Um processo que lhe vai ficar na memória, pela investigação que sai fora do formato, pela envolvência de pessoas e conhecimentos distintos, pela rede de investigadores que ali nasceu. Nem uma vírgula foi imposta pelos investigadores aos compartes. "O propósito foi termos uma noção da complexidade da gestão florestal em Portugal, no sentido de se conseguir reverter o processo de degradação da floresta, tanto social como ecológico", refere.
O projecto começou em Abril de 2010 e termina no final deste mês. A compreensão da floresta envolveu uma rede de investigadores de diversas áreas, da Geografia à Biologia, da Ecologia à Geologia, do Direito à Economia. Os temas surgiram da constante troca de ideias entre cientistas e moradores e foram ganhando vida em actividades que se concentraram em três eixos criteriosamente definidos. Primeiro: conhecer aquele território, a evolução e alterações do uso do solo desde 1965 até hoje, a sua biodiversidade. Segundo: a institucionalidade, com um estudo detalhado do regime jurídico dos baldios, que pode ser útil num momento em que está em discussão uma nova proposta de lei que pode alterar substancialmente a actual forma de organização dos baldios. Terceiro: pedagogias para a formação comunitária.

"Procurámos encontrar, em conjunto, formas de envolvimento da comunidade, apesar de os baldios serem já geridos por ela", continua Rita Serra. "A vivência modificou-se e, nesse sentido, houve, em parte, um desligar do interesse. Os baldios têm esta capacidade de gerir as florestas, de forma a reconstruí-las, mas também de construírem as comunidades e serem um espaço onde se pode, mais uma vez, fortalecer o envolvimento dos cidadãos e dos habitantes locais no que é a gestão dos seus próprios territórios."
Luís Trota está satisfeito com a partilha trazida pelo projecto. Um relatório florístico irá mostrar todas as espécies de arvoredo que existem nos baldios de Vilarinho, uma preciosa ajuda no programa de vegetação florestal que os compartes já definiram como uma prioridade. A bagagem estará mais cheia, mais sustentada quando os habitantes de Vilarinho se sentarem à mesma mesa com o Instituto de Conservação da Natureza, por exemplo. "O conhecimento científico é muito importante, dá-nos outros argumentos."

Joaquim Seco, presidente da Junta de Freguesia de Vilarinho e tesoureiro da Comunidade de Compartes, é um homem satisfeito. "Sempre acreditámos neste projecto. O seu a seu dono. O Estado, como pessoa de bem, chegou a um ponto, ou por falta de meios ou por desinteresse, que ignorou totalmente a gestão da nossa floresta", comenta o autarca. As raízes do projecto do CES parecem-lhe sólidas. "Os investigadores conheceram a nossa realidade local e sabemos que este projecto não dá o fruto no momento."

Uma floresta que respira saúde

Desde 2001 que Vilarinho tem uma equipa de sapadores florestais - agora com seis homens e uma engenheira florestal. Filipe Amado é o chefe dessa equipa e segundo comandante dos Bombeiros Voluntários da Lousã. Todo o trabalho que é feito faz a diferença. "Antes dos sapadores, não se subia a encosta porque não havia ruas, estava tudo obstruído, nada era limpo há anos e anos. Se houvesse um incêndio, não havia uma faixa de contenção, não havia um passeio, o que faz toda a diferença no combate aos incêndios", refere. Orgulha-se das conquistas do dia-a-dia para que a floresta respire saúde.
Filipe Amado não esquece a morte do comparte Franquelim, amigo da primária. Estava perto, muito perto. Também é em nome dele que se cuida daquela floresta. E tenta passar a mensagem: "Nós, que estamos no terreno todo o ano, poderíamos criar faixas de contenção, poderíamos fazer essa gestão das faixas primárias e secundárias nos fogos controlados, mas não fazemos porque não temos técnicos credenciados para acompanhar todas as equipas de sapadores."

Eugénia Rodrigues, engenheira florestal, coordenadora da equipa de sapadores de Vilarinho, sabe bem a importância dos conhecimentos científicos, mas é sobretudo a gestão comunitária que destaca do projecto SCRAM. "A grande mais-valia não é apenas a gestão florestal: a mais-valia é em termos de gestão comunitária, com as pessoas, de várias soluções que nos podem trazer e permitindo-lhes pensar que este território também é delas."
A Escola de Verão dos Minicompartes de Vilarinho foi um passo nesse sentido. Durante duas semanas, 12 crianças, dos seis aos dez anos, tiveram várias actividades para compreenderem que aquela floresta também lhe pertence. Construíram um minidicionário com as palavras "baldios", "comunidade", "comum". Tiveram a oportunidade de vestir a pele de jornalistas para entrevistarem as pessoas mais antigas da freguesia para saberem como a zona tinha sido gerida, mas também como funciona a junta de freguesia e a comunidade de compartes. Visitaram os baldios e, no final, improvisaram uma assembleia. Foi a mais participada de sempre, com mais de 50 pessoas, com os pais compartes na plateia.
Patrícia Ferreira, bióloga, doutoranda de um programa do CES, acompanhou os minicompartes. A dimensão educativa é importante e pode fazer toda a diferença, não apenas na transformação da qualidade de vida das populações, mas também nos próprios projectos de investigação. A escola dos pequenos compartes deu os seus frutos. O trabalho de campo abriu novas perspectivas de actuação. Há ferramentas pedagógicas que estimulam o envolvimento a nível comunitário, neste caso, um kit para ser usado por estudantes e professores em contexto escolar. "Um kit pedagógico em articulação com um documentário, que também está a ser feito sobre o projecto, de forma a fomentar a participação dos compartes, contextualizar o território, contextualizar as dimensões do passado dos baldios, e as perspectivas futuras para o contexto da gestão comunitária", revela a bióloga.

O Estado em tribunal

O brasileiro Anailton Salgado, professor da Universidade da Floresta, no estado do Acre, estudante de doutoramento do CES na área de Sociologia e pedagogo de formação, escutou o que os mais velhos tinham a contar sobre a gestão das terras de Vilarinho e esteve com os mais novos na escola de Verão. "Foi uma forma muito dinâmica de trabalhar os conceitos, o que são os baldios, os compartes, o que é comunidade, o que pode ser público, o que pode ser privado, bem como a consciência do espaço em que se está a viver, e falar do futuro", conta. Vilarinho surpreendeu-o. "É uma comunidade muito bem estruturada", diz, em contraponto com o que vê ao seu redor. Promete levar esta experiência para o outro lado do Atlântico. "Tive de conhecer tudo, quais os problemas, de que forma estas pessoas gerem a floresta. E assim se abre essa porta de aprender a aprender, o conhecimento adquirido da própria experiência. Em vez de se falar sobre, está na hora de falar com."

A ucraniana Iryna Skulska, engenheira florestal, também fez parte do projecto, no âmbito de um programa de doutoramento do CES. O trabalho de campo inspirou-a e promete estudar a fundo o que se passa no seu país. "Este projecto desenvolve muitas problemáticas. Na Ucrânia, há casos destes, mas quase ninguém sabe. Há florestas comunitárias mas que não sabem organizar-se juridicamente." Mayren Abvez-Vargas, mexicana, bióloga, investigadora do CES, acompanhou o processo desde o início e a experiência não será esquecida quando regressar ao México. "É um projecto que foi construído passo a passo, planeado semana a semana, que foi criando uma rede de relações, contactos muito próximos, relações de trabalho, de partilha."
Em Fevereiro do ano passado, o Estado deixou de ser co-gestor da encosta de Vilarinho, terminando na justiça uma relação assumida em 1976. Os compartes quiseram pôr um ponto final na gestão partilhada por várias razões. As negociações com os ex-serviços florestais começaram na década de 1990. "Durante esse tempo, fomos verificando que a floresta morria cada vez mais", lembra Luís Trota. "Alertávamos as pessoas que representavam o Estado nas florestas e ainda por cima recebíamos respostas menos adequadas. Estávamos a ser muito mal conduzidos, a lei dizia que o Estado tinha de nos prestar assistência jurídica, financeira, administrativa e técnica, mas nada fazia." A herança começava a pesar. A floresta fechava-se sobre si própria, sem acessos que permitissem combater um incêndio, sem talhões descontínuos que poderiam escapar ilesos em caso de fogo. "Quando alertávamos os serviços florestais para retirar as árvores secas e caídas, a resposta que nos davam era que tinham de fazer um auto de marca, colocar à venda, e só depois é que se poderia retirar o arvoredo." "O Estado deixou-nos uma floresta com mil acácias num metro quadrado onde só deveria estar uma - mas não podemos dizer que fez tudo mal, deixou algumas coisas boas, como a diversificação do arvoredo."
A paciência esgotou-se com uma queixa-crime contra os compartes por terem mandado cortar árvores afectadas pela doença dos anéis vermelhos, depois de uma análise feita pela Escola Superior Agrária de Coimbra junto ao campo de aviação. Essa queixa foi a gota de água e as relações azedaram. "Na altura, quem estava aqui a gerir a administração florestal fez uma queixa-crime contra os baldios de Vilarinho de que tínhamos mandado cortar sem a sua autorização. Mas acabaria por ser demonstrado, por a+b, que aquela zona não estava em co-administração com o Estado." Os compartes foram a tribunal e ganharam a causa.
"Os senhores que gerem a actividade da floresta ainda têm o chip dos florestais antes do 25 de Abril, ainda pensam como no tempo do Estado Novo, do quero, posso e mando, e não pode ser assim. Se existem leis que regulamentam a actividade dos baldios, o Estado devia cumprir", refere Luís Trota. O processo para afastar o Estado da gestão da floresta deu entrada no tribunal em 2009, foi julgado em 2011, como um caso comum, com testemunhas arroladas, e a sentença em primeira instância foi favorável à comunidade local. O Estado recorreu, voltou a perder e saiu de cena.

José Augusto Ferreira da Silva foi o advogado dos compartes. O caso não é vulgar, mas não é inédito. Há mais baldios em Portugal, sobretudo no Norte do país, que percorreram o mesmo caminho. Em Vilarinho, a justiça deu razão aos habitantes, justificando que "o Estado vinha a ter uma acção completamente parasitária. Não fazia reflorestação, deixava invadir de nemátodo toda a zona do pinhal, apenas ia buscar as receitas da floresta", diz. O advogado recorda que foram enviadas comunicações a ministros e secretários de Estado sobre a situação da floresta de Vilarinho. Não houve respostas. "O Estado não fazia, não deixava fazer e criava obstáculos quando se queria fazer", conclui.

Os exemplos que vêm de fora

Os projectos comunitários mostram que é possível pensar a longo prazo em nome de ambientes saudáveis. No México, 80% das florestas são geridas por comunidades locais que se organizaram para tornar os seus territórios sustentáveis. É um dos exemplos internacionais mais bem sucedidos na área e não é por acaso que Raúl Garcia Barrios, investigador da Universidade Nacional Autónoma do México, biólogo, doutorado em Economia, é o coordenador da equipa internacional do projecto SCRAM em Vilarinho. "A experiência, a nível mundial, diz-nos que quando uma comunidade está bem organizada é mais eficaz do que uma empresa privada na gestão florestal", refere.

Uma constatação que, em seu entender, não deveria ser ignorada pelo poder político em qualquer parte do mundo, que deveria reconhecer o papel que as comunidades têm na gestão dos seus territórios, isentando-as de impostos, por exemplo. "Tem de haver uma política pública clara em favor do desenvolvimento de empresas comunitárias nos baldios de Portugal. Construir políticas públicas adequadas a este propósito, porque está demonstrado que as comunidades são mais efectivas na gestão das florestas." A vários níveis, na produtividade directa, na venda da madeira, na redução de custos, passando pela criação de postos de trabalho e pela concretização de valores sustentáveis relacionados com a gestão das florestas, como o respeito pelo meio ambiente. "A gestão comunitária das florestas é muito poderosa", comenta.
México e Portugal têm realidades distintas, mas o investigador encontra algumas semelhanças. "No México, haverá quatro mil comunidades parecidas com a de Vilarinho. No caso mexicano, está demonstrado que as empresas florestais indígenas, por exemplo da província de Oaxaca, são mais eficazes na conservação das florestas do que as áreas naturais protegidas. Ou seja, as comunidades indígenas conservam melhor as florestas, ao mesmo tempo que as exploram, do que o Governo." E porque dependem directamente das florestas, investem mais recursos na protecção dos territórios que gerem.
Organizar uma comunidade é um processo complexo e que integra diversos níveis de conhecimento. "Mas não é necessário que tenha apoio público, basta que não se imponham demasiadas restrições", sublinha Raúl Barrios. O investigador lembra, por outro lado, que durante muitos anos se questionou a eficácia das comunidades locais na gestão das florestas e, a nível mundial, sobretudo nas décadas de 1970/80, as políticas caminharam no sentido da privatização. "Actualmente, a vivência favorece a gestão comunitária das florestas, que é muito funcional e que pode responder a diversos aspectos de comercialização, de conservação, da qualidade de vida."
A privatização das florestas, na sua opinião, pode persistir como um produto ideológico, como uma tendência que é importante inverter. "Há movimentos internacionais muito fortes que estão a tentar corrigir essa tendência e a lembrar que é importante ter políticas públicas que fortaleçam a gestão florestal comunitária." O que pode ser feito, sublinha, através do fortalecimento dos direitos de propriedade e investindo numa política fiscal e educativa que reconheça e valorize a dedicação das comunidades que olham e tratam dos seus territórios florestais.

É este o caminho que os habitantes de Vilarinho estão a percorrer todos os dias.

Fonte: Público