29 dezembro 2013

Afinal quantos relatórios sairam?!

1461045_10151814014813015_83347601_nRelativamente aos Acidentes Mortais, ocorridos este Verão no combate aos Incêndios Florestais, todos nós temos conhecimento do resultado da análise, tornada Pública no Relatório Parte I  que poderá aceder (AQUI)

De todas as noticias sobre o Relatório que saíram nos OCS, existe uma, no Jornal "O Publico" que é a mais concreta relativamente ao Relatório. (Radiografia dos Incêndios Mortais)

Acredito piamente na Integridade, Seriedade e Profissionalismo da Jornalista, ate porque de certeza ela não iria adivinhar as coisas.

Mas acho que existe aqui algo que está a falhar, pelo menos para mim. E porquê?

  • Será possível haverem dois relatórios?!
  • A que relatório acedeu a Jornalista, ou como obteve Informações para escrever este artigo, que nós Bombeiros não possamos ter acesso?

Pois ao comparar-mos as informações escritas nas páginas 5, 6 e 7 do Relatório feito pelo Dignissimo Dr. Xavier Viegas, e as informações escritas no Jornal “O Público” notamos uma grande diferença, ou serei só eu a ler isso?!

Senão vejamos, e comparemos:


NO RELATÓRIO

Acidente de Cicouro

Neste acidente, ocorrido próximo de Cicouro, Miranda do Douro, no dia 1 de agosto perderam a vida dois elementos da Corporação dos BV Miranda do Douro: o António Nuno Ferreira (45 anos) e o Daniel Preto Falcão (25 anos). Estes operacionais foram surpreendidos pelo agravamento do fogo em vegetação herbácea e arbustiva quando combatiam um foco secundário num povoamento, perto de um flanco do incêndio. Três elementos que permaneceram dentro do VFCI 02 de Miranda do Douro durante alguns minutos e depois se retiraram dela, sofreram queimaduras. Ao contrário do que algumas imagens tiradas na zona deste acidente deram a entender, os fire‐shelter dos Bombeiros não foram utilizados no processo de fuga.

NO JORNAL O PUBLICO

Local: Cicouro, Miranda do Douro
Data: 1 de Agosto
Morreram dois bombeiros de Miranda de 45 e 25 anos

Suspeita-se que o incêndio começou numa seara quando se utilizavam máquinas para a cortar. António Ferreira e Daniel Falcão, ambos voluntários dos bombeiros de Miranda do Douro, seguiam numa viatura de combate chefiada pelo primeiro. A equipa recebera ordens para se reunir com outras no ataque a um flanco do incêndio. “Por iniciativa própria e sem informar o comandante das operações, a viatura acabou por se afastar do local designado, tendo entrado no vale, com o propósito de alcançar o flanco em condições mais favoráveis”, descreve-se. Ao avistarem um foco secundário, numa parcela junto à estrada, decidiram atacá-lo. Deixaram o veículo na via e dirigiram-se para o fogo. Mas uns minutos depois o vento fez aumentar a intensidade do incêndio e obrigou à retirada. As chamas impediram António de chegar à viatura e obrigaram-no a fugir pela estrada percorrendo cerca de 30 metros com fogo dos dois lados. A roupa de protecção começou a arder e sofreu queimaduras graves. Daniel, que estava com a agulheta, também foi apanhado pela radiação, o calor e o fumo. Salvaram-se os três elementos da equipa que se resguardaram na viatura e fugiram quando esta começou a arder.

NO RELATÓRIO


Acidente de Peso

Ocorrido próximo da localidade do Peso, Covilhã, no dia 15 de agosto, durante o processo de retirada de um ataque a uma frente de incêndio que se propagava com forte vento, num pinhal junto de habitações. Um conjunto de seis viaturas retirou‐se quando as condições do incêndio se agravaram, devido ao vento e às projeções. Faleceu o Bombeiro Pedro Miguel Jesus Rodrigues (40 anos) dos BV da Covilhã, que teve dificuldades em acompanhar a equipa na fuga para uma zona segura.

NO JORNAL O PUBLICO

Local: Peso, Covilhã
Data: 15 de Agosto
Morreu bombeiro dos voluntários da Covilhã de 40 anos

A viatura dos voluntários da Covilhã recebeu ordens para se dirigir à periferia norte da povoação de Peso, onde já estavam outros meios, a fim de retardar o avanço do fogo e proteger as casas. A viatura preparava-se para ir reabastecer, quando devido a algumas projecções o fogo aumentou a intensidade e ameaçou cercar o grupo de nove viaturas e 40 elementos. Foi dada ordem de retirada a todos para uma zona de segurança a 350 metros de distância. A tripulação da Covilhã teve um ligeiro atraso na recolha do material e também por falta de pressão no sistema pneumático, devido a uma avaria detectada mais tarde. Pedro Rodrigues atrasou-se a entrar na viatura e “muito possivelmente terá ficado impedido de entrar nela pela poeira levantada pelas viaturas em movimento ou pelo fumo”. Pedro não conseguiu entrar em nenhuma das viaturas e percorreu 150 metros de uma estrada com seis metros de largura ladeada por vegetação que estava a arder. “Durante este trajecto terá sido submetido a forte radiação, provinda de pinheiros que arderam pelas copas e a fumo denso", lê-se no relatório, que acrescenta: "Tinha problemas de visão que poderão ter contribuído para a sua falta de percepção da localização das viaturas na altura da retirada."


NO RELATÓRIO

Acidente de Olival Novo

Este acidente ocorreu em Olival Novo, na Serra do Caramulo, Concelho de Tondela, no dia 22 de agosto, no segundo dia do incêndio de Alcofra. Envolveu um grupo de cerca de 30 elementos do GRIF 2 de Lisboa, que estavam a atacar um flanco de incêndio, que se propagava lateralmente ao longo de uma encosta com elevado declive. O fogo na parte inferior da encosta causou uma erupção que levou os elementos a retirarem para a zona queimada, que entretanto reacendera parcialmente. Para além de alguns feridos registou‐se a morte dos Bombeiros Ana Rita Pereira (23 anos) dos BV Alcabideche e Bernardo Figueiredo (23 anos) dos BV de Estoril. A prestação de socorros foi dificultada pelo corte da estrada de acesso ao local, pelo fogo e pelo elevado declive do terreno.

NO JORNAL O PUBLICO

Local: Olival Novo, Caramulo
Data: 22 de Agosto
Morreram dois voluntários (Alcabideche e Estoril) de 23 anos

Ana Pereira, voluntária de Alcabideche, e Bernardo Figueiredo dos bombeiros do Estoril, integravam um grupo de reforço destacado para o incêndio de Alcofra, no Caramulo. O grupo recebera indicações do posto de comando para se dirigir para o vale de Olival Novo, com ordem de evitar a propagação do fogo para leste. Depois de fazer um reconhecimento ao incêndio foi decidido combater o fogo ao longo da encosta. Depois de terem conseguido descer 100 metros da encosta, a frente de chamas começou a ganhar mais intensidade. “Em pouco tempo o fogo que tinha estado a incubar na vegetação arbustiva e herbácea junto da linha de água e se tinha deslocado para o lado esquerdo do grupo de combate, começou uma erupção que foi reforçada por um desfiladeiro a menos de 50 metros”, lê-se no relato. Foi dado o alarme e os bombeiros retiraram para a estrada ou para o queimado. Neste processo vários ficaram feridos, porque com a erupção a área queimada em que estavam reacendeu, ficando em brasa, obrigando-os a permanecer ou caminhar sobre uma área muito quente. As botas não resistiram e alguns tiveram que se apoiar com os joelhos e as mãos no terreno. Bernardo foi um deles, tendo caído inanimado a meio da encosta. Ana Rita carregava uma espécie de mochila com mangueiras que pesava 12 quilos. Quando o fogo reacendeu Ana e os colegas foram apanhados por muito calor e fumo. Os colegas perderam o equilíbrio e rolaram pela encosta 20 ou 30 metros. A ela aconteceu-lhe o mesmo, mas um ou dois minutos depois, tendo estado mais tempo sujeita ao calor e às chamas. O socorro demorou mais de uma hora a chegar.


NO RELATÓRIO

Acidente de Queirã

Neste acidente, que ocorreu no dia 23 de agosto, foi vítima o senhor Joaquim Silva Mendes (62 anos), que era Presidente da Junta de Freguesia de Queirã, Vouzela, quando tentava auxiliar uma equipa de sapadores florestais no combate a uma frente de fogo que se propagava numa encosta a meio da qual se tinham posicionado, a qual acabou por escapar ao controle. A manobra de fuga que empreenderam foi dificultada pelo facto de as duas viaturas estarem viradas uma para a outra, sem possibilidade de cruzar, devido à pouca largura da estrada e também pelo facto de a viatura da Junta de Freguesia ter um atrelado equipado com um reservatório e uma motobomba. As duas viaturas acabaram por ser destruídas pelo fogo e o senhor Joaquim Silva Mendes sofreu lesões graves de que viria a falecer no dia 17 de setembro.

NO JORNAL O PUBLICO

Local: Queirã, Vouzela
Data: 23 de Agosto
Morreu presidente da junta da Queirã de 62 anos

Ao início da tarde uma equipa de sapadores foi destacada para o fogo. Os três elementos estacionaram a viatura numa estrada florestal com três metros de largura, a meio da encosta, abaixo da qual se desenvolvia o fogo. Um dos sapadores desceu com a agulheta e iniciou ataque directo, cerca de 20 metros abaixo da estrada. Joaquim Mendes, presidente da junta da Queirã, preparava a viatura de apoio ao ataque inicial (um jipe todo o terreno com um atrelado) com ajuda dos outros sapadores. De seguida, o autarca dirigiu-se por outra estrada até ao local onde estava parada a viatura dos sapadores e estacionou em frente a ela. O fogo entrara numa área de maior vegetação e com a forma de um desfiladeiro. Os sapadores aperceberam-se do perigo e decidiram retirar. Como não conseguiam tirar a viatura (falta de espaço e perigo na manobra de marcha atrás) dois fugiram a pé. Permaneceu apenas um sapador e Joaquim que tentavam salvar as viaturas. Os dois desatrelaram o reboque para tentar retirar o jipe mais facilmente. Ao tentarem cruzar as viaturas, o jipe da junta ficou preso numa árvore. Ao aperceber-se da proximidade das chamas, o sapador disse a Joaquim para fugir. Mas este não se apercebeu que a viatura estava mesmo na berma, ao lado de um barranco com um desnível de mais de um metro. Ao sair caiu nele e foi atingido pelas chamas. O sapador ainda conseguiu fugir.

NO RELATÓRIO

Acidente de S. Marcos

No acidente de S. Marcos, Tondela, ocorrido no dia 29 de agosto, na sequência de um reacendimento do incêndio de Alcofra, na Serra do Caramulo, perderam a vida os Bombeiros Cátia Pereira Dias (21 anos) e Bernardo Cardoso (18 anos), da Corporação de Carregal do Sal, quando atuavam com um grupo de combate numa estrada a meia encosta, junto de um desfiladeiro. A maior parte das equipas retirou pouco antes de se iniciar a erupção no desfiladeiro, mas a equipa de Carregal do Sal atrasou‐se a fazê‐lo e foi colhida pelas chamas que provocaram queimaduras mortais nos dois Bombeiros referidos e noutros elementos da equipa. Um elemento dos GIPS, que tentou socorrer esta equipa, teve de se refugiar num aqueduto para escapar às chamas, tendo sido hospitalizado.

NO JORNAL O PUBLICO

Local: S. Marcos, Santiago de Besteiros
Data: 29 de Agosto
Morreram dois bombeiros do Carregal do Sal com 21 e 18 anos

O acidente na Serra de S. Marcos ocorreu a 500 metros do de Olival Novo, no Caramulo, numa encosta semelhante. No dia 29 de manhã verificou-se um reacendimento na periferia do incêndio, numa parte que tinha sido extinta três dias antes. Duas equipas do Grupo de Intervenção de Protecção e Socorro (GIPS) da GNR estavam a combater o fogo na encosta abaixo da estrada, num dos lados do desfiladeiro, com o apoio de um helicóptero. E a equipa dos bombeiros de Carregal do Sal mantinha-se na estrada. Pouco depois, todos se aperceberam do perigo e decidiram retirar. Inexplicavelmente alguns elementos da equipa de Carregal do Sal não se apercebendo do perigo nem das ordens insistentes de retirada, permaneceram onde estavam, com a intenção de enfrentar o fogo”, descreve o relatório. Um bombeiro de Canas de Senhorim e um militar dos GIPS decidiram “com risco de vida” avisar os colegas de Carregal do Sal que estavam em perigo. Quando o militar chegou ao pé dos bombeiros estes estavam rodeados pela chama. Este ainda teve tempo de se refugiar num aqueduto, mas mesmo assim sofreu queimaduras e inalou muito fumo. O condutor de Carregal do Sal entrou na viatura e parou mais à frente para recolher Cátia Ribeiro e Bernardo Cardoso. “Quando quis voltar a andar o motor parou e a viatura descaiu, descendo em recuo, até embater com muita violência na barreira de rocha que ladeava a estrada”, conta-se. Os três bombeiros ainda abandonaram a viatura, mas Bernardo e Cátia já tinham sofrido queimaduras graves enquanto permaneceram no exterior da viatura. Ela morreu no local e ele no hospital uns dias mais tarde.

NO RELATÓRIO

Acidente de Sanfins

No acidente de Sanfins, Valença, ocorrido igualmente no dia 29 de agosto, perdeu a vida o Bombeiro Fernando Manuel Sousa Reis (50 anos), dos BV Valença, que participava no ataque inicial a um foco de incêndio, numa encosta coberta de mato. A dada altura o fogo ganhou grande intensidade e, perante a ordem de retirar, a equipa subiu para a estrada, abrigando‐se por trás da viatura. O Bombeiro Fernando Reis que era o condutor da viatura, tentou retirá‐la, para evitar a aproximação das chamas, mas ao entrar na cabina, as chamas causaram a combustão de vários materiais do interior do veículo. Não conseguindo suportar o calor e o fumo, saltou da cabina, pela janela do lado direito, que estava aberta, caindo na estrada, onde foi socorrido. A viatura continuou a rolar, vindo a cair na encosta, tendo‐se imobilizado na orla da área ardida.

NO JORNAL O PUBLICO

Local: Sanfins, Valença
Data: 29 de Agosto
Morreu bombeiro dos voluntários de Valença com 50 anos

O acidente ocorreu “no ataque a um foco de incêndio relativamente pequeno numa encosta junto a uma estrada municipal” em Sanfins, Valença. Uma viatura dos bombeiros de Valença, conduzida por Fernando Reis, igualmente o chefe da equipa foi chamada para reforçar o combate.
Pouco tempo após o início das operações o incêndio aumentou de intensidade, provavelmente devido a ventos gerados pelo próprio fogo ou à entrada das chamas numa zona de maior carga de combustível. Tendo sido dado ordem de retirada a equipa subiu para a estrada e abrigou-se por trás da viatura. “Ao ver que as chamas poderiam destruir o veículo, o condutor correu para a cabina”, relata-se.
E continua-se: “Ao entrar, devido também ao facto de a janela do lado direito se encontrar aberta, os gases quentes entraram na cabina e, embora a porta tenha sido rapidamente fechada, deram início ao processo de combustão de diversos materiais do interior da cabina”.
A viatura começou a descer pela estrada, mas com o desconforto dos fumos Fernando Reis saltou pela janela, tendo caído na estrada. Sofreu queimaduras no corpo e no aparelho respiratório e morreu uns dias mais tarde no hospital.

                                                                                                                             

Reitero mais uma vez, que escrevo isto, mas que respeito o trabalho do Ex.mo Sr. Dr. Xavier Viegas, e da Jornalista do Jornal O Público.
Assim sendo, e comprovando por forma de leitura, inclusivé que a mesma noticia é baseada num relatório, pergunto eu:

  • Afinal Quantos Relatórios Existem?!
  • Ou será que o Relatório (Parte I), o único que se encontra de acesso público, contém a informação um pouco mais… omitida… por razões de facto?!

Eu, como todos os Bombeiros Portugueses, gostaria de saber na REALIDADE o que se passou, e acho que tenho esse direito, assim como todos vós, agora…

Que se passa algo de confuso, isso passa-se!!


Marco Francisco
(Administração)
diariobombeiro@gmail.com