06 novembro 2013

'Mortes no Caramulo resultaram de erro básico de estratégia'

O presidente da Associação Portuguesa de Bombeiros Voluntários diz que os dirigentes da Protecção Civil deviam assumir responsabilidades pelos acidentes fatais durante o combate aos fogos. "Por muito menos se pediram cabeças" no ano passado, recorda Rui Silva.


Este ano, morreram oito bombeiros em incêndios. Até que ponto um voluntário está preparado para enfrentar estes cenários?

Ser bombeiro voluntário não é sinónimo de amadorismo ou de falta de formação. No caso do combate a incêndios florestais, os voluntários têm uma formação de base e especializada, consoante os seus postos e progressão na carreira. E não podemos esquecer que o número de horas em combate permite uma prática que não pode ser descurada.

O que contribuiu para a ‘tragédia humana’ na serra do Caramulo?

Foi um erro básico, de estratégia e de táctica, daqueles que os manuais de formação inicial alertam para não se cometerem. Os bombeiros não se colocam ou movimentam no terreno ao gosto de cada um. Obedecem a uma cadeia de comando bem definida e, por isso, pedi para que fosse mudada a estratégia, evitando-se o combate directo e em terreno vantajoso para o fogo. Quando decidiram ouvir-me, os acidentes pararam...

Em todos os acidentes mortais, houve uma característica mais ou menos comum: os bombeiros foram de repente cercados pelo fogo ou surpreendidos pelo ‘efeito chaminé’. Estamos perante condições climatéricas novas ou isto já sucedeu antes?

Não estamos perante nada de novo, todos esses factores devem ser avaliados aquando da colocação dos meios. Nenhum bombeiro devia sofrer acidentes por estes motivos.

Defendeu a demissão do comandante da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC). Mantém?

Não defendi a demissão de ninguém, mas concordo que algumas pessoas deviam sair pela ‘porta grande’ no final de Outubro. É curioso como, no ano passado, por muito menos, se pedia a cabeça dos responsáveis após o incêndio do Algarve [em Julho de 2012, entre São Brás de Alportel e Tavira].

Refere-se a que pessoas?

Ao presidente da ANPC, ao comandante nacional da ANPC, ao director nacional de bombeiros e a muitos outros, que deveriam assumir as suas responsabilidades e não ‘sacudir a água do capote’, como têm feito permanentemente. Lamentavelmente, alguns destes responsáveis nem se dedicam em exclusividade ao serviço público, acumulando outras funções no sector privado, achando-se ainda no direito de atribuir culpas.

Conhece as conclusões dos inquéritos que todos os anos são abertos pela ANPC?

Não e nem sei de ninguém que os conheça. Alguns assuntos são verdadeiros tabus ou segredos na ANPC, apesar de o discurso ser, por vezes, uma verdadeira peça teatral – como o de estudarem os casos e aplicarem as conclusões na formação da Escola Nacional de Bombeiros.

Alguém das cúpulas alguma vez foi responsabilizado?

Não, pelo contrário. O que verifico são verdadeiras promoções e recompensas das pessoas a quem imputaram acusações.

De quem fala?

Do ex-comandante nacional, Vaz Pinto [actual comandante distrital de Faro].

Os voluntários não costumam analisar o que correu mal em cada ano?

Não e isso não é exclusivo dos voluntários, é do sistema. Todos os anos se inventa e todos os anos temos os mesmos problemas.

Mas já disse que os voluntários não são amadores.

Quem inventa não são os bombeiros, que cumprem a directiva operacional nacional e o que se decide em Carnaxide [sede da ANPC]. É aí que se inventa...

Qualquer pessoa pode ser bombeiro voluntário ou há requisitos específicos?

Sim, a escolaridade (9.º ano) e a robustez física. Em alguns corpos de bombeiros, os exames de admissão são mais específicos e obedecem a provas e testes mais exigentes. Contudo, ao longo da formação, os estagiários são permanentemente avaliados e sujeitos a eliminação ou desistência.

Que provas de admissão se fazem e quanto tempo duram?

A formação inicial tem uma duração de 350 horas e é seguida de um período de estágio. Depois de promovido a bombeiro, segue-se a formação contínua, dentro e fora do quartel.

Faz-se reciclagem?

Ao longo do ano e todos os anos, de acordo com o mapa de formação anual aprovado pela ANPC. Além disso, para concursos de promoção, há formação especializada de acordo com o posto.

Como é o seu dia-a-dia?

Não tenho horários. Esta actividade condiciona toda a minha vida pessoal e profissional, e não o contrário. Sou técnico na Câmara de Vila do Conde e professor num curso profissional de técnico de protecção civil na Maia.

Alguma vez ficou ferido?

Em 30 anos de serviço, fiquei gravemente ferido num despiste de uma ambulância onde perdi um camarada. Apesar de representarem menos de 10% do serviço feito por bombeiros, os incêndios florestais são o cenário mais duro devido ao desgaste físico, às falhas na logística e à pouca protecção do equipamento individual.

Isso significa que falta equipamento ou este não tem qualidade?

Não temos equipamentos de qualidade, o que, no caso dos bombeiros, equivale a não terem equipamentos individuais para actuar em incêndios florestais. Os bombeiros profissionais também actuam nestes incêndios, mas em menor número e por menos tempo, pois trabalham por turnos e escalas, com todas as implicações em horas-extra e trabalho suplementar, que as câmaras municipais querem evitar. E eles têm equipamentos de qualidade.

A formação dos voluntários é muito diferente da dos profissionais?

A matéria dada não é diferente, assim como as técnicas. O que difere é a forma como a formação é disponibilizada. Por exemplo, aos voluntários, em algumas especialidades, a formação é dada mais tarde e ao longo da carreira, e aos profissionais é ministrada logo na formação inicial.

Como se chega a comandante?

É nomeado pela direcção do corpo de bombeiros, por um período de cinco anos, que podem ser renovados. Além disso, não precisa de ser bombeiro, basta fazer um curso de formação específico para quadros de comando. E as acções de reciclagem são variáveis.

Concorda com este regime?

Claro que não. O regime tem muitas falhas e arbitrariedades.

Que apoio é dado aos bombeiros feridos em incêndios e às famílias dos que morrem?

No nosso caso, o seguro é de acidentes pessoais – logo, é profundamente injusto. Baseia-se no salário mínimo nacional e as indemnizações são muito baixas, rondando os 100 mil euros em caso de morte. Os bombeiros feridos só são ressarcidos de despesas quando têm alta médica, o que leva a casos de famílias desesperadas. É uma vergonha nacional a assistência aos voluntários.

E as regalias são suficientes?

O estatuto social do bombeiro prevê que o voluntário tenha uma contagem de tempo de serviço para efeitos de reforma de cerca de 15%, mas tem de fazer descontos. Só que até isso está previsto ser retirado em Dezembro... Também está previsto poder receber, por ano, até um salário mínimo nacional, para pagar propinas. Também está isento de taxas moderadoras nos cuidados primários de saúde, mas paga no SNS e exames... Enfim, comparados com os deveres, os direitos são uma ridicularia.

Mas há cada vez mais estudantes e licenciados a aderirem aos voluntários. Como explica este sentimento de abnegação?

Os bombeiros ainda despertam nos mais jovens um interesse motivado pela formação especializada, que só ali se aprende e pratica. O que para muitos é radical, para nós é salvamento... Os mais novos sempre foram atraídos pela farda e pela acção, sendo agora mais instruídos também.

Fonte: SOL